Kodokan goshin jutsu: o kata de defesa pessoal

O Kodokan goshin jutsu é um exercício em dupla de defesa pessoal, formado por vinte e uma técnicas. Uke ataca, tori se defende. As respostas usam recursos do Judô: tai-sabaki, desequilíbrio, projeção, chave de braço, torção de punho e atemi. Doze técnicas tratam de ataque desarmado e nove de ataque com arma.

O Kodokan criou o exercício em janeiro de 1956 e o mantém entre os kata que ensina e examina. Ele é uma das sete provas da competição de kata da Federação Internacional de Judô e aparece em exame de faixa preta. No Brasil, é o kata da prova prática de 5º dan. No regulamento interno do Kodokan, é o kata avaliado no 6º dan.

Foi criado dezoito anos depois da morte de Jigoro Kano, por uma comissão. É o mais recente dos kata que entram em exame de dan e em competição.

O nome

護, go, significa proteger, guardar, tomar conta. O caractere junta 言, a fala, como componente de sentido, com 蒦, que entra pelo som. O Shuowen Jiezi define 護 como 救視也, socorrer e vigiar.

身, shin, é o corpo e, por extensão, a própria pessoa. O caractere é um pictograma: a forma antiga desenha um corpo humano, com o ventre saliente. Juntos, 護身 formam a ideia de proteger o próprio corpo.

術, jutsu, fecha o nome. O caractere junta 行, que sozinho representa um cruzamento de ruas, com 朮, componente fonético. O Shuowen define 術 como 邑中道也, o caminho dentro de uma cidade. Do caminho vem o sentido corrente: maneira de fazer, procedimento, técnica. O mesmo 術 está em jūjutsu.

O nome completo é 講道館護身術, a técnica de defesa pessoal do Kodokan. Nenhum 形 aparece nele. Boa parte dos kata traz o caractere no próprio nome: 投の形, 固の形, 極の形, 柔の形, 五の形, 古式の形. O seiryoku zen’yō kokumin taiiku (精力善用国民体育) é outro que não o traz. A comissão que preparou o exercício, criada em 1952, também não usou 形: chamava-se comissão de 護身法, com 法, método. O mesmo vale para o joshi goshin-hō, o outro conjunto de defesa pessoal do Kodokan.

Na prática isso não mudou o tratamento. O Kodokan lista o exercício entre seus kata, ensina como kata, examina como kata e o inscreve como kata em competição. A Federação Japonesa de Judô, ao apresentá-lo, escreve que foi estabelecido como um novo 形 do Kodokan, mas o descreve como uma técnica de defesa, 護身の術. A leitura de que o nome anuncia a finalidade do exercício em vez do seu formato é uma interpretação razoável, não uma explicação publicada pelo Kodokan.

Por que um kata novo, tendo o kime-no-kata

O kime-no-kata é anterior. Kano começou a montá-lo pouco depois de fundar o Kodokan, para o estudo do combate a sério, e a reunião do Butokukai de 1906 fixou as vinte formas. Ali uke ataca de joelhos e em pé, com punhal e com espada, e boa parte das situações supõe um mundo em que se anda armado de espada e se recebe visita sentado em seiza.

O próprio Kodokan explica a criação do goshin jutsu por aí: a mudança dos modos de vida levou ao pedido de um kata de defesa pessoal adequado ao tempo, e o exercício foi montado consultando técnicas de várias artes marciais. As situações passaram a ser as que alguém pode encontrar na rua. Uke agarra, estrangula, soca, chuta, saca um punhal, ataca com um bastão ou aponta uma pistola.

Houve cuidado deliberado para que as técnicas não repetissem as do kime-no-kata. O momento em que a ação começa também mudou. No goshin jutsu, tori e uke caminham um na direção do outro e o confronto se resolve no instante em que entram na distância de ataque. Esse encontro tem nome, 行合い (yukiai), e é o traço que a Federação Japonesa aponta como característico do exercício. Uke ataca de frente, pelo lado e por trás.

Outra novidade foi técnica. As chaves de punho kote-hineri e kote-gaeshi tinham saído do sistema do Judô e voltaram aqui, vindas do Tenjin Shin’yō-ryū. Os dois nomes são correntes no aikidô. Nada de chave de perna ou de pescoço foi reintroduzido.

Quem fez o kata

O Kodokan montou a comissão em 1952 e o trabalho levou cerca de três anos. Participaram vinte e cinco praticantes, do 7º ao 10º dan. A relação de nomes vem de fontes secundárias japonesas, não de documento do Kodokan. Os três décimos dans que ela traz são Kyūzō Mifune, Hideichi Nagaoka e Kaichirō Samura, e Nagaoka morreu em novembro de 1952, poucos meses depois de a comissão ser montada. Também aparecem na relação Sumiyuki Kotani, então 8º dan, e Kenji Tomiki, então 7º dan, além de um praticante de Tenjin Shin’yō-ryū, o que ajuda a explicar a volta das chaves de punho.

Tomiki tinha estudado com Morihei Ueshiba e mais tarde organizou a linha competitiva do aikidô. Risei Kano, presidente do Kodokan e filho de Jigoro Kano, atribuiu a ele papel de destaque na formulação do exercício. A primeira demonstração pública aconteceu no kagami-biraki de 1956, executada por Tomiki e por Tadao Ōtaki.

A data de criação é 1º de janeiro de 1956. Vieram depois anotações em 1987 e revisões em 1992 e em 2004.

Como se pratica

Na saudação de abertura tori fica à direita de quem olha para o shōmen, uke à esquerda, como no jū-no-kata e no koshiki-no-kata. Uke entra com o bastão e o punhal na mão direita e a pistola dentro do judogi, e deixa os três no tatame, em seiza, antes de começar. Vai buscá-los um a um quando chega a parte correspondente.

São três armas. O punhal (短刀, tantō) e a pistola (拳銃, kenjū) são sacados de dentro do judogi. Para o bastão (杖, jō) o manual do Kodokan dá cerca de um metro de comprimento e dois centímetros e meio de diâmetro; a Federação Internacional pede cerca de 92 cm, aceita o comprimento comercial de 100 cm e admite diâmetro de 20 a 25 mm. Em competição todas as armas são de madeira e nenhuma peça metálica é admitida, a pistola inclusive.

O treino começa pelo deslocamento do corpo, mantendo shizentai, ajustando o ângulo e a distância em relação ao parceiro. Velocidade e precisão vêm depois, à medida que o movimento fica seguro. Na maior parte das formas a resposta segue a mesma ordem: desviar, atingir um ponto vulnerável e então controlar, projetar ou desarmar. Em algumas, como as duas contra chute, tori vai direto ao controle.

Nas três formas com pistola uke manda tori levantar as mãos, e tori as levanta devagar. Em duas delas o cano encosta no corpo; em koshi-gamae uke aponta da altura do quadril, sem encostar. Nas técnicas em que uke fica preso, no chão ou em pé, ele bate duas vezes para desistir, no corpo de tori, no próprio corpo ou no tatame.

As vinte e uma técnicas

A relação se divide em duas partes e cinco grupos.

  • Parte desarmada (徒手の部), doze técnicas: sete com uke agarrando (1 a 7) e cinco com uke atacando à distância (8 a 12).
  • Parte com armas (武器の部), nove técnicas: três contra punhal (13 a 15), três contra bastão (16 a 18) e três contra pistola (19 a 21).
NºAtaque de ukeResposta de tori
1Ryōte-dori, segura os dois punhos e ataca com joelhadaSolta o punho direito, atemi de te-gatana na têmpora e kote-hineri em pé
2Hidari-eri-dori, segura a lapela esquerda e empurra para trásAbre a própria lapela, atemi nos olhos, kote-hineri e te-gatame no solo
3Migi-eri-dori, segura a lapela direita e puxa para baixoSoco de baixo para cima no queixo e kote-gaeshi, projetando à frente
4Kata-ude-dori, prende um braço por trás e empurraChute lateral no joelho e waki-gatame em pé
5Ushiro-eri-dori, segura a gola por trás e puxaGira, soco no plexo e ude-gatame
6Ushiro-jime, hadaka-jime em pé, por trásEncaixa o queixo, gira controlando o braço e leva ao solo com te-gatame
7Kakae-dori, abraça a cintura por trás, sobre os braçosPisa no peito do pé, abre os cotovelos, gira e projeta com chave de braço
8Naname-uchi, golpe diagonal na têmporaRecua, desvia com a mão, soco no queixo e ō-soto-otoshi
9Ago-tsuki, soco de baixo no queixoDesvia por baixo, segura o punho, torce o braço e projeta na diagonal
10Ganmen-tsuki, soco no rostoEntra em diagonal, soco nas costelas, vai às costas e aplica hadaka-jime
11Mae-geri, chute frontal no baixo-ventreGira, segura o tornozelo e o pé, torce e derruba uke de costas
12Yoko-geri, chute lateralEntra em diagonal, afasta o chute com o antebraço, vai às costas e derruba pelos ombros
13Tsukkake, saca o punhal e prepara a estocadaEntra pelo lado antes do golpe, atemi no rosto, torce o punho e aplica te-gatame
14Choku-tsuki, estocada reta no abdômenDesvia e controla o cotovelo, soco no queixo e waki-gatame em pé
15Naname-tsuki, estocada diagonal no pescoço, com pegada invertidaRecua, kote-gaeshi com tai-sabaki, te-gatame e retirada do punhal
16Furi-age, ergue o bastão acima da cabeçaEntra antes do golpe, bloqueia o braço, empurra o queixo e projeta com ō-soto-gari
17Furi-oroshi, golpe diagonal descendente na cabeçaEsquiva, atemi com o dorso do punho, atemi de te-gatana entre as sobrancelhas, projeta para trás e desarma
18Morote-tsuki, estocada no plexo com as duas mãos no bastãoTai-sabaki, desvia o bastão, chave no cotovelo, projeta e fica com o bastão
19Shōmen-zuke, encosta a pistola no abdômenGira o quadril para fora da linha do cano, segura o cano e o punho e toma a arma
20Koshi-gamae, aponta a pistola da altura do quadrilGira o quadril, segura o cano, torce o punho, toma a arma e atemi com o cabo
21Haimen-zuke, encosta a pistola nas costasGira, prende o antebraço, aponta o cano para cima, toma a arma e derruba uke
Nomes e ordem conforme o Kodokan Kata Textbook: Kodokan Goshin-jutsu, tradução oficial de 2014. As respostas de tori resumem esse texto e o roteiro de avaliação da União Europeia de Judô, de 2015.

É o kata mais recente?

Depende do que se conta. Entre os kata que aparecem em exame de graduação e em competição, sim: 1956 é a data mais recente. O kodomo-no-kata é posterior, apresentado em agosto de 2019 e publicado em vídeo no canal do Kodokan em abril de 2020, e a relação de kata que o Kodokan publica hoje o traz em nono lugar. Ele é uma sequência de ensino para crianças, organizada em sete unidades, e o próprio Kodokan diz que o conteúdo de cada unidade pode servir de prova de kyu. Em exame de dan e em competição ele não entra.

Por mais de sessenta anos, portanto, o goshin jutsu foi o kata mais novo do Kodokan. Continua sendo o mais novo entre os que a instituição cobra em exame de dan e leva a competição. A relação que a associação adota, na página de kata, é a que o Kodokan publica hoje.

Exame e competição

No Kodokan, o regulamento interno de graduação relaciona um kata para cada faixa: nage-no-kata no 1º e no 2º dan, katame-no-kata no 3º, jū-no-kata no 4º, kime-no-kata no 5º, Kodokan goshin jutsu no 6º, itsutsu-no-kata no 7º e koshiki-no-kata no 8º.

No Brasil o calendário é outro. Pelo Regulamento Nacional para Exame e Outorga de Faixas e Graus da Confederação Brasileira de Judô, de 2023, o candidato a 5º dan apresenta o Kodokan goshin jutsu completo como tori, mais um grupo sorteado do kime-no-kata, e faz uma prova escrita sobre o kata.

Em competição, o exercício está no programa da Federação Internacional desde o começo. Quando o campeonato mundial de kata foi criado, em 2009, disputavam-se cinco kata, e o Kodokan goshin jutsu era um deles. Em 2025, em Paris, o programa chegou a sete provas, com a entrada do itsutsu-no-kata e do koshiki-no-kata. No Japão, o campeonato nacional de kata também tem sete provas e inclui o goshin jutsu.

Ver o kata

O filme de ensino publicado pelo Kodokan no seu canal oficial percorre as vinte e uma formas, com narração em inglês, e mostra também o protocolo de saudação e o manejo das armas. A federação britânica o adota como referência para seus exames de kata.

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Fontes: Kodokan Judo Institute, Kodokan Kata Textbook: Kodokan Goshin-jutsu, tradução oficial em inglês, 2014, e a relação de kata do site do Kodokan. Federação Japonesa de Judô, comitê de formas, em Mind, vol. 28. Kodokan, 講道館昇段資格に関する内規, 2015, para os kata de exame por faixa. União Europeia de Judô, roteiro de avaliação de Kodokan-goshin-jutsu, 2015, e Federação Internacional de Judô, Kata Competition: Criteria for the Evaluation, janeiro de 2025, para as regras de competição e as medidas das armas. Confederação Brasileira de Judô, Conselho Nacional de Graus, Regulamento Nacional para Exame e Outorga de Faixas e Graus, 2023, para o exame brasileiro. British Judo Association, Kata Award Scheme, 2025. Canal oficial do Kodokan no YouTube, vídeos do kodomo-no-kata, abril de 2020. Para a análise dos caracteres, Shuowen Jiezi. A composição da comissão de 1952 e o papel de Kenji Tomiki vêm de fontes secundárias japonesas e de material de linhagem do aikidô Shodokan, sem consulta a documento do Kodokan. Hideichi Nagaoka (1876–1952) morreu em 22 de novembro daquele ano. A data de 1888 para o kime-no-kata é aproximada e varia entre autores.