O kime-no-kata é um exercício em dupla com vinte formas, dedicado à defesa contra ataques feitos para valer. Uke ataca com pegadas, socos, chutes, punhal e espada. Tori resolve cada situação com deslocamento, golpe em ponto vital, projeção, imobilização, chave de braço ou estrangulamento.
As vinte formas se dividem em dois conjuntos. As oito primeiras compõem o idori, executado com os dois praticantes sentados em seiza. As doze seguintes compõem o tachiai, executado com os dois em pé. Nos dois conjuntos há ataques de mão livre e ataques com arma.
O Kodokan mantém o kime-no-kata entre os kata que pratica e o descreve como a forma em que se aprendem as técnicas do combate a sério. Ele é uma das sete provas da competição de kata da Federação Internacional de Judô. No Brasil, o Regulamento Nacional para Exame e Outorga de Faixas e Graus da Confederação Brasileira de Judô, na edição de 2023, que é a vigente, pede o kata completo, como tori, no exame de 4º dan.
O nome
極, kime, tem hoje o sentido de limite, extremo, ponto máximo. O caractere junta 木, madeira, com 亟. O Shuowen Jiezi define 極 como 棟, a cumeeira, viga mais alta do telhado, e analisa o caractere como 從木亟聲: 木 entra pelo sentido, 亟 entra pelo som. Do ponto mais alto da construção veio o sentido de ponto extremo, que é o corrente. O verbo 極める se lê kiwameru, levar alguma coisa até o fim. No vocabulário das artes marciais o mesmo verbo se lê kimeru, fixar a chave até que ela se resolva, e é dessa leitura que vem o kime do nome. No nome do kata o termo designa o instante em que a ação se resolve e o adversário fica controlado.
形, kata, é forma. Como o caractere se compõe está na página do gō-no-kata.
O kata também circula sob o nome 真剣勝負の形, shinken shōbu no kata. 真剣 é a espada de verdade, por oposição à espada de treino, e por extensão significa fazer alguma coisa a sério. 勝負 é a disputa que decide vitória e derrota. A primeira versão do exercício, feita por Kano, chamava-se 勝負の形, shōbu-no-kata.
Como se pratica
Cada forma tem a mesma estrutura. Uke assume a distância prevista, prepara o ataque e o executa, na maioria das formas com kiai. No tachiai, os ataques de sode-tori, ushiro-dori e nuki-gake vêm sem ele. Tori sai da linha do ataque, controla o braço ou a perna que atacou e conclui. Quando a técnica de finalização é chave ou estrangulamento, uke bate duas vezes em tori, no tatame ou palma contra palma, sinalizando mairi.
No idori as quatro primeiras formas partem do hizazume-no-maai, cerca de dois punhos entre os joelhos dos dois, e nas outras uke se aproxima ou muda de lugar conforme o ataque. Uke ataca de seiza, levantando o quadril e apoiando os dedos dos pés, com exceção da primeira forma, em que ataca sem levantar os dedos. No tachiai a distância varia de um passo até os 2,7 metros do kiri-oroshi.
Para o Kodokan, a prática do kata serve para dominar o tai-sabaki ágil e a maneira mais eficaz de controlar o adversário. Os golpes de tori param a curta distância do corpo de uke, sem tocá-lo.
As armas
Duas armas entram no kata: o punhal e a espada longa. Uke traz as duas na mão direita já na abertura, deposita-as no tatame atrás de sua posição e volta a buscá-las quando a sequência pede. O protocolo de pegar, virar, apoiar e recolher tem ordem fixa e ocupa parte considerável da execução.
O punhal aparece em cinco formas, três no idori e duas no tachiai. Em duas delas, as duas chamadas kiri-komi, uke usa o punhal como substituto de uma espada curta: prende-o à esquerda do quadril, solta a lâmina da bainha e corta de cima para baixo na testa de tori.
A espada aparece nas duas últimas formas do tachiai. Em nuki-gake, tori interrompe o saque antes que a lâmina saia da bainha. Em kiri-oroshi, uke saca, assume a guarda na altura dos olhos, avança em tsugi-ashi, passa a guarda alta e corta.
As vinte formas
O nome de cada forma designa o ataque de uke. A resposta de tori fica fora do nome.
Idori, sentados
| Nº | Forma | Ataque de uke | Resposta de tori |
|---|---|---|---|
| 1 | Ryote-dori | Segura os dois punhos de tori | Chute no suigetsu e ude-hishigi-waki-gatame |
| 2 | Tsukkake | Soco no suigetsu | Golpe no uto e ude-hishigi-hara-gatame |
| 3 | Suri-age | Empurra a testa de tori com a palma da mão | Chute no suigetsu e ude-hishigi-hiza-gatame |
| 4 | Yoko-uchi | Golpe de punho na têmpora esquerda | Kata-gatame e cotovelada no suigetsu |
| 5 | Ushiro-dori | Abraça os dois braços por trás | Seoi-nage, ushiro-kesa-gatame e golpe na virilha |
| 6 | Tsukkomi | Estocada de punhal no suigetsu | Golpe no uto e ude-hishigi-hara-gatame |
| 7 | Kiri-komi | Corte vertical na testa, com o punhal usado como espada curta | Ude-hishigi-waki-gatame |
| 8 | Yoko-tsuki | Estocada de punhal no lado direito do abdômen | Golpe no uto e ude-hishigi-hara-gatame |
Tachiai, em pé
| Nº | Forma | Ataque de uke | Resposta de tori |
|---|---|---|---|
| 1 | Ryote-dori | Segura os dois punhos de tori | Chute na virilha e ude-hishigi-waki-gatame |
| 2 | Sode-tori | Segura a manga esquerda por trás e empurra tori para a frente | Golpe de pé no joelho e ō-soto-gari |
| 3 | Tsukkake | Finta com a esquerda e soca o uto com a direita | Hadaka-jime |
| 4 | Tsuki-age | Soco de baixo para cima no queixo | Ude-hishigi-waki-gatame |
| 5 | Suri-age | Empurra a testa de tori com a palma da mão | Golpe no suigetsu e uki-goshi à esquerda |
| 6 | Yoko-uchi | Golpe de punho na têmpora esquerda | Okuri-eri-jime |
| 7 | Ke-age | Chute na virilha | Segura a perna que chutou e responde com chute na virilha |
| 8 | Ushiro-dori | Abraça os dois braços por trás | Seoi-nage e golpe de te-gatana no uto |
| 9 | Tsukkomi | Estocada de punhal no suigetsu | Golpe no uto e ude-hishigi-hara-gatame |
| 10 | Kiri-komi | Corte vertical na testa, com o punhal usado como espada curta | Ude-hishigi-waki-gatame |
| 11 | Nuki-gake | Tenta sacar a espada | Trava o saque e aplica kataha-jime |
| 12 | Kiri-oroshi | Saca a espada e corta a testa de cima para baixo | Ude-hishigi-hara-gatame |
O lugar do atemi
O Judô de competição não usa atemi. Golpear é falta em randori e em shiai. O kime-no-kata inclui golpes em pontos vitais, pensados para o combate a sério e proibidos no randori. O kata é o lugar em que essa parte do repertório continua sendo treinada.
Os pontos vitais nomeados no kata são poucos e voltam sempre. O uto, entre as sobrancelhas. O suigetsu, a boca do estômago. O kasumi, a têmpora, alvo só de uke, nas duas formas chamadas yoko-uchi. E a virilha. Tori golpeia com a ponta do pé, com o punho, com o cotovelo e com a mão em te-gatana, sempre parando antes do contato.
Na maioria das vezes o golpe funciona como abertura. Ele interrompe a ação de uke, produz o desequilíbrio e dá a tori o tempo de entrar na chave, no estrangulamento ou na projeção. Em quatro formas o golpe encerra a sequência: o quarto e o quinto idori, o sétimo e o oitavo tachiai.
De onde veio
Pouco depois de fundar o Kodokan, Kano montou uma forma de combate a sério com dez técnicas, com o mesmo propósito dos kata de várias escolas de jūjutsu, e a chamou de shōbu-no-kata. Depois melhorou as técnicas e aumentou o total para catorze ou quinze.
Em 1906, o Dai Nippon Butokukai reuniu representantes das escolas para fixar os kata. Kano levou à reunião um projeto de vinte técnicas, oito de idori e doze de tachiai, resultado de mais estudo do jūjutsu e de acréscimos próprios. A discussão daquela reunião estabeleceu o kime-no-kata como ele é praticado hoje. O nage-no-kata e o katame-no-kata, que já existiam desde por volta de 1885 e 1886, passaram pela mesma padronização na mesma ocasião.
Obras de referência costumam dar 1888 como ano de criação do kata. O relato do próprio Kodokan não fixa ano para a primeira versão: descreve uma sequência que começa logo depois de 1882 e se fecha em 1906.
O texto que o Kodokan publica hoje traz revisão de 7 de julho de 1977 e emenda de 1º de junho de 2006.
O Kodokan goshin jutsu, meio século depois
Em 1956 o Kodokan estabeleceu o Kodokan goshin jutsu, com vinte e uma formas: doze de mão livre e nove contra arma. As armas são punhal, bastão e pistola. A espada longa e a curta ficaram de fora.
Os dois kata tratam do mesmo assunto com o armamento de épocas diferentes. O kime-no-kata trabalha punhal e espada longa, com o punhal fazendo também o papel da espada curta. O goshin jutsu troca as espadas por bastão e pistola.
No exame brasileiro os dois vêm em sequência. O Regulamento Nacional da CBJ, na edição de 2023, pede o kime-no-kata completo como tori e uma descrição escrita sobre ele no 4º dan. No 5º dan pede o Kodokan goshin jutsu completo como tori, mais um grupo sorteado do kime-no-kata. Antes disso, o 2º dan pede o katame-no-kata e o 3º dan o jū-no-kata. O documento que vale em cada exame é o edital da federação estadual, que segue o regulamento nacional.
Não confundir os nomes
- 極の形, kime-no-kata. 極 é limite, ponto extremo. É o kata tratado nesta página.
- 固の形, katame-no-kata. 固 é firme, endurecido, fixo. Reúne imobilizações, estrangulamentos e chaves de braço no solo. Os dois nomes são trocados com frequência.
- 講道館護身術, Kodokan goshin jutsu. Costuma ser apresentado como versão atualizada do kime-no-kata. Tem nome, data e relação de técnicas próprios, e o Kodokan o lista como kata independente.
Os outros kata estão relacionados na página Kata.
Ver o kata
O filme que o Kodokan publica, narrado em inglês, percorre as oito formas de idori e as doze de tachiai. É onde se acompanha o protocolo de pegar, apoiar e recolher as armas, que a descrição escrita não dá conta de transmitir.
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Fontes: Kodokan Judo Institute, Kodokan KATA Textbook: Kime-no-Kata, tradução oficial em inglês, 2014, com revisão de 1977 e emenda de 2006, de onde vêm a introdução histórica, os nomes das formas, as distâncias e as descrições técnicas. Kodokan Judo Institute, Kodokan KATA Textbook: Katame-no-Kata, 2014, para a datação do nage-no-kata e do katame-no-kata por volta de 1885 e 1886, e Kodokan Goshin-jutsu, 2014, para a data de janeiro de 1956 e a composição de doze mais nove formas. Kodokan Judo Institute, página 形 do sítio institucional japonês, para a descrição do kata. Jigoro Kano, Kodokan Judo, Kodansha International, citado a partir de transcrição publicada por judoinfo.com, sem consulta ao original impresso. Confederação Brasileira de Judô, Conselho Nacional de Graus, Regulamento Nacional para Exame e Outorga de Faixas e Graus, edição de 2023, que é a vigente; as exigências reproduzidas aqui foram conferidas nas edições de 2018, 2019 e 2021, iguais entre si nesse ponto, e no Regulamento de Outorga de Faixas e Graus Superiores da Federação Mineira de Judô, de 2023. O arquivo de 2023 publicado pela CBJ é digitalização sem camada de texto. International Judo Federation, Comissão de Kata, Kata Competition: Criteria for the Evaluation, janeiro de 2025, para os alvos do yoko-uchi, para a regra dos dedos dos pés no idori e para a penalização do contato durante o ataque, e ijf.org, para o programa do Campeonato Mundial de Kata. Para a análise de 極, Shuowen Jiezi (極,棟也。從木亟聲) e o verbete de 極 no Wiktionary; para a leitura kimeru no vocabulário das artes marciais, o verbete 極技 (kimewaza) da Wikipédia em japonês. Carl De Crée e Llyr C. Jones, Kōdōkan Jūdō’s Inauspicious Ninth Kata: The Joshi goshinhō, “Self-Defense Methods for Women”, Part 2, Archives of Budo, vol. 7, nº 3, 2011, para os ideogramas 勝負の形, para o nome alternativo shinken shōbu-no-kata e para o punhal no papel da espada curta; verbete 柔道形 da Wikipédia em japonês, para o mesmo nome alternativo. A data de 1888, corrente em obras de referência, não consta do relato do Kodokan e fica aqui como atribuição de terceiros; De Crée e Jones atribuem 1888 ao shōbu-no-kata e datam o kime-no-kata entre 1906 e 1917. Os trabalhos desses dois autores dedicados especificamente ao kime-no-kata não foram consultados, nem a autobiografia de Kano, de onde vem o escopo atribuído à reunião de 1906.