Itsutsu-no-kata: a forma de cinco movimentos

O itsutsu-no-kata é um exercício em dupla com cinco formas. Tori e uke percorrem distâncias grandes no tatame, não se seguram pelo judogi e chegam à queda por deslocamento contínuo. Cada forma trata de um jeito diferente de lidar com a força do outro.

É um dos kata oficiais do Kodokan. Aparece no exame de sétimo dan e entrou na competição em 2025, primeiro no Campeonato Europeu de kata, em Riga, e depois no Campeonato Mundial de kata, em Paris. Com ele e com o koshiki-no-kata, a competição de kata da Federação Internacional de Judô passou a sete provas.

As cinco formas são chamadas só pelo número: ippon-me, nihon-me, sanbon-me, yonhon-me e gohon-me. Nenhuma tem nome próprio. O manual do Kodokan diz isso na primeira página, ao explicar o nome do kata.

O nome

五 significa cinco. Aqui o caractere se lê itsutsu, a contagem japonesa nativa (hitotsu, futatsu, mittsu, yottsu, itsutsu). A leitura de origem chinesa do mesmo caractere é go, a que aparece em gokyō e em godan. O kata usa essa contagem, e por isso o nome não soa como “go”.

O nome informa a quantidade de formas e mais nada. O Kodokan explica dessa maneira: o exercício foi feito até cinco formas, e daí a designação. O mesmo texto diz que o kata representa o céu, a terra e a natureza, e trata as cinco formas como expressão dessa ideia em técnica de Judô. A série dos cinco elementos que circula fora do manual não aparece ali.

形, kata, é forma. A página do gō-no-kata trata esse caractere com mais detalhe.

Como o kata se organiza

Na cerimônia de abertura tori e uke ficam a cerca de cinco metros um do outro. Na quarta forma tori começa a sete metros, atrás de uke. Na quinta os dois ficam de costas um para o outro, na diagonal, a cerca de oito metros. O kata ocupa o tatame inteiro.

Em nenhuma das cinco formas tori segura a lapela ou a manga. Na primeira apoia a palma aberta no peito de uke. Na segunda segura o punho e o cotovelo. Na terceira os dois cruzam os braços um sob o outro. Na quarta tori usa o cotovelo direito. Na quinta não há contato de mãos em momento nenhum.

Na quarta forma tori começa a caminhar em ayumi-ashi e vai acelerando até correr. Na quinta os dois avançam um contra o outro ganhando velocidade até o instante do sacrifício.

Há um único atemi declarado: na segunda forma uke golpeia o centro do abdômen de tori em te-gatana. Kenji Tomiki lia também o empurrão de palma da primeira forma como um atemi de tipo suave. Fumiaki Shishida e colegas examinaram essa leitura em 2017 e descreveram o mecanismo pelo qual o controle dos dedos vai encurtando o passo de uke até a perda de equilíbrio.

As quedas não recebem nome de técnica. O manual nomeia apenas o modo de cair da primeira forma, jizō-daore, em que uke desaba de costas sem levantar os pés e bate no solo com as duas mãos. Nas outras formas uke cai de lado, cai de costas ou passa por cima do corpo de tori e se levanta em shizen-hontai.

As cinco formas

NºO que aconteceImagem no texto do Kodokan
Ippon-meTori apoia a palma aberta no centro do peito de uke, dedos para cima, e empurra sem interromper, alternando a pressão do mínimo e do polegar. Uke recua e cai de costas.Mesmo uma força pequena vence uma força grande, atacando de modo racional e ininterrupto.
Nihon-meUke se ergue do solo e golpeia o abdômen de tori em te-gatana. Tori recua o pé esquerdo, gira, segura o punho e o cotovelo de uke e puxa para baixo apoiando o joelho no tatame.Aproveitar diretamente um ataque forte para vencê-lo.
Sanbon-meOs dois abrem os braços lateralmente e giram no sentido anti-horário, aproximando-se em espiral. No encontro cruzam os braços e equilibram a força. Tori desliza os pés, deita-se e projeta uke por cima do próprio corpo.O círculo interno, com corrente em redemoinho, vence o círculo externo.
Yonhon-meTori corre por trás de uke, passa cerca de um metro além dele, levanta os braços, baixa as mãos e recua dois ou três passos apoiando o cotovelo direito no peito de uke, que recua até cair.Uma grande onda avança sobre a praia e se retira levando tudo.
Gohon-meOs dois giram, se encontram de frente e avançam acelerando. Pouco antes do contato tori desliza para fora do pé de uke, deita-se sobre o lado esquerdo e coloca o corpo sob as pernas dele. Uke cai para a frente por cima de tori.Enfrentar de frente uma grande onda e escapar do perigo entregando a própria vida por um instante.
Resumo feito a partir do Kodokan Kata Textbook: Itsutsu-no-Kata, tradução oficial aprovada em 18 de janeiro de 2011. Para a quinta forma o manual acrescenta uma segunda leitura, a dos fenômenos do espaço e do universo.

As leituras que circulam

Fora do manual há várias séries de nomes para os cinco movimentos. Elas ajudam a memorizar e a ensinar, e nenhuma delas é nomenclatura do Kodokan.

  • Energia direta, desvio, redemoinho, ação e reação, vazio. Série que circula em material de língua inglesa, sem autoria clara.
  • Terra, fogo, vento, água e vazio, os cinco elementos. A Federação Internacional de Judô usou essa série ao apresentar o kata em 2025. Ela não aparece no texto do Kodokan.
  • Oshikaeshi, eige, tomowakare, roin e settsuka-no-wakare. Nomes atribuídos ao repertório do Tenjin Shin’yō-ryū e repetidos em apostila de clube em língua inglesa, sem confirmação em fonte japonesa da própria escola.

Steven R. Cunningham observa que a associação entre o número cinco e os elementos é antiga no pensamento chinês e japonês, e anterior a Kano. Isso ajuda a entender por que cinco parecia um número adequado para organizar princípios naquele ambiente. O manual do kata continua descrevendo as formas por número e por imagem de movimento.

Quando foi feito e por que parou em cinco

O Kodokan data o kata em 1887 e o atribui a Kano. A mesma data aparece no material da Federação Internacional de Judô e na maior parte das apostilas de federação.

O texto oficial diz que o exercício foi feito até cinco formas. Muita gente chama o itsutsu-no-kata de kata inacabado por causa disso e da ausência de nomes. A explicação corrente entre professores é que Kano pretendia nomear as formas e morreu em 1938 sem fazê-lo. O Kodokan não apresenta essa explicação no manual. Ela deve ser tratada como interpretação, e não como posição da instituição.

Carl De Crée estudou a origem do kata e sustenta que ele é anterior à fundação do Kodokan, que Kano o tomou do Tenjin Shin’yō-ryū e fez pequenas alterações antes de incorporá-lo ao Judô. O trabalho foi apresentado em 2012 e divulgado em comunicações de congresso. O texto completo não circula. O Kodokan mantém a atribuição a Kano, e a divergência segue aberta.

A relação com o koshiki-no-kata

Os dois kata ficam no alto da progressão do Kodokan. O itsutsu-no-kata é o kata avaliado no exame de sétimo dan. O koshiki-no-kata é o de oitavo. Os dois entraram juntos na competição em 2025.

O koshiki-no-kata veio inteiro do Kitō-ryū, escola que Kano estudou e cuja história a página dele conta. Ali o trabalho é de corpo inteiro, com alternância entre ceder e agir e pouca atenção ao detalhe de pegada.

O itsutsu-no-kata trabalha em registro parecido: distância grande, corpo inteiro, técnica sem nome, queda que nasce do deslocamento. A ligação proposta do itsutsu-no-kata com uma escola anterior aponta para o Tenjin Shin’yō-ryū. O Kitō-ryū entra no Judô pelo koshiki-no-kata.

Em exame e em competição

No exame de dan da Divisão Internacional do Kodokan o itsutsu-no-kata aparece pela primeira vez no sétimo dan, como kata da prova prática. Nos graus anteriores ele não é cobrado. No oitavo dan ele volta como teste curto, ao lado do nage-no-kata, do katame-no-kata, do jū-no-kata, do kime-no-kata e do Kodokan goshin jutsu, e o kata da prova prática passa a ser o koshiki-no-kata.

Na competição de kata, tori precisa ser sexto dan ou acima e uke precisa ser pelo menos faixa preta. A exigência vale para o itsutsu-no-kata e para o koshiki-no-kata, e não para as outras categorias.

A pontuação final é bem menor que a dos outros kata, porque há cinco formas a avaliar. No Campeonato Mundial de Paris, em 2025, a dupla vencedora do itsutsu-no-kata somou 164,5 pontos. Na mesma competição a dupla vencedora do Kodokan goshin jutsu, que tem vinte e uma formas, somou 544 pontos.

Não confundir os nomes

  • 五の形, itsutsu-no-kata. 五 é o número cinco. É o kata deste texto.
  • 剛の形, gō-no-kata. 剛 é dureza. A confusão acontece porque 五 também se lê go em outros contextos, e porque quem escreve sem macron acaba com “go no kata” nos dois casos.
  • 後の先の形, gonosen-no-kata. 後 é depois. É um estudo de contra-ataques, sem relação com os outros dois.

Ver o kata

O Kodokan demonstra o itsutsu-no-kata na abertura do ano, no kagami-biraki, e publica a gravação. A de 2026 está abaixo. Sem nome de técnica para acompanhar, é pelo vídeo que se entende o que cada forma pede.

O vídeo é fornecido pelo YouTube. Ele só será carregado após seu consentimento para mídia externa.

Abrir no YouTube (abre em nova aba)

Ao carregar, você consente com mídia externa do YouTube para este e os próximos vídeos. Revogue quando quiser na Política de Privacidade.

Enquanto o vídeo não for carregado, nenhuma solicitação é enviada ao YouTube e nenhum cookie é gravado.

Fontes: Kodokan Judo Institute, Kodokan Kata Textbook: Itsutsu-no-Kata, tradução oficial aprovada em 18 de janeiro de 2011, consultada na versão francesa da Comissão de kata da Federação Internacional de Judô (texto japonês revisto em 15 de junho de 1992 e em 1º de outubro de 2008); sem consulta ao original japonês. Kodokan Judo Institute, página 形 do site japonês, e 2025 Summer Kodokan Dan Promotion Examination da Divisão Internacional, para a tabela de kata por dan. Federação Internacional de Judô, apresentação do itsutsu-no-kata e resultados do Campeonato Mundial de kata de Paris, 2025. União Europeia de Judô, Campeonato Europeu de kata de Riga, 2025, para a estreia da categoria e a exigência de grau. Fumiaki Shishida, Masanori Sakaguchi, Tadayuki Sato e Yasuo Kawakami, Technical principles of atemi-waza in the first technique of the itsutsu-no-kata in judo, Archives of Budo, vol. 13, 2017, pp. 255–269. Steven R. Cunningham, entrevista The Dynamic Nature of Kata. As posições de Carl De Crée sobre a origem do kata vêm de resumos e de material de terceiros, sem consulta ao texto integral, que não circula publicamente. A datação em 1887 e a autoria de Kano são a posição do Kodokan; De Crée as contesta.