Joshi goshin-hō: o método de defesa pessoal da seção feminina

O joshi goshin-hō é o exercício de defesa pessoal que o Kodokan formulou para a seção feminina e concluiu em 1943. São dezoito técnicas, distribuídas em uma série executada sozinha e duas séries em dupla. As situações são de agarramento: pulso preso, dedos torcidos, pegada por trás, ameaça com faca.

O kata sumiu das listas a partir dos anos 1990. Não entra em competição e não figura no atual regulamento de exame de faixa do Kodokan, nem para homens nem para mulheres. Nenhuma declaração de obsolescência foi publicada, e o exercício nunca foi retirado do currículo. A relação que o Kodokan publica hoje não o traz, e a associação segue essa relação na sua página de kata, onde o joshi goshin-hō fica entre as formas de fora da lista oficial. De Crée e Jones formulam a permanência com cautela: para eles o kata segue, ao que tudo indica, oficialmente reconhecido.

Carl De Crée e Llyr C. Jones, que publicaram o único levantamento acadêmico extenso sobre o assunto, contam dez kata do Kodokan em vez de nove, porque as duas listas em circulação divergem: uma inclui o joshi goshin-hō e omite o gō-no-kata, a outra faz o contrário. Quem quiser estudar o exercício hoje encontra pouca coisa. A descrição mais acessível fora do japonês está em Judo a pictorial manual, de Pat Harrington, de 1987, reeditado em 1992. A edição japonesa do Illustrated Kōdōkan Jūdō de 1986 traz o kata, e as edições do mesmo livro em outras línguas não. Não existe vídeo instrucional comercial.

O nome

女子, joshi, designa a mulher, e em japonês cobre também a menina: 女子柔道 é o Judô feminino. O composto junta 女, mulher, com 子, criança. No par 女子 o segundo caractere não marca idade, e a palavra serve para adulta e para menina.

護身, goshin, é proteger o corpo. 護 significa proteger, guardar, resguardar. A análise clássica trata 言, a palavra, como componente de sentido, e 蒦 como componente fonético, ou seja, 蒦 entra pelo som. 身 é o corpo, o próprio corpo de quem se defende. O mesmo par aparece em goshin jutsu e em textos japoneses sobre defesa pessoal em geral.

法, hō, significa método, regra, procedimento. O caractere teve a forma antiga 灋, que trazia 氵, água, e 廌, um animal. As análises divergem sobre qual componente entra pelo som, e nenhuma delas altera o sentido corrente: o modo estabelecido de fazer uma coisa.

O nome termina em 法 e não em 形, o caractere que fecha nage-no-kata, katame-no-kata e os demais. Toshirō Daigo, décimo dan e antigo instrutor-chefe do Kodokan, explicou a De Crée e Jones que o joshi goshin-hō é mais aplicação do que conjunto de princípios, e que por isso não recebe o sufixo kata. Ele apontou a mesma razão para o Kodokan goshin jutsu, que termina em 術. Os dois exercícios continuam classificados entre os kata do Kodokan, apesar do sufixo.

O nome completo é 女子柔道護身法, joshi jūdō goshin-hō, forma que a maioria dos documentos oficiais usa. A abreviação joshi goshin-hō vem do próprio Jirō Nangō e também é correta.

Como se pratica

Todo o kata é executado em pé. Não há parte ajoelhada, ao contrário do kime-no-kata e do kime-shiki. A saudação inicial também é feita de pé, com as posições invertidas em relação ao nage-no-kata: tori fica com o shōmen à sua direita, como no jū-no-kata. Em seguida os dois viram de costas um para o outro e depositam à frente o que trazem. Tori carrega uma bolsa, objeto que nenhum outro kata do Kodokan usa. Uke carrega um cordão ou lenço, o himo, e uma faca de madeira, o tantō. A distância inicial entre os dois é de cerca de quatro metros, medida que nunca foi revista.

A primeira série, tandoku-dōsa, é feita sem parceiro e trabalha tai-sabaki: deslocamentos, giros, mudança de linha, abaixamento do centro de gravidade. São os movimentos que depois reaparecem aplicados nas séries em dupla.

A segunda série, ridatsu-hō, é só saída. As três primeiras formas são te-hodoki, soltura de mão. A quarta libera o braço, a quinta libera o corpo. Não há atemi nem projeção.

A terceira série, seigo-hō, acrescenta a resposta. Em cada uma das cinco formas a saída é seguida de um atemi. Uma única forma do kata termina em projeção: ushiro-dori, a décima sétima. Kotani e seus coautores chamam essa projeção de seoi-nage. De Crée e Jones a descrevem como uma te-waza próxima de uma variação de tai-otoshi ou de seoi-otoshi.

Keiko Fukuda, principal divulgadora deste kata fora do Japão, escreveu que a prática constante forma um estado de calma e de confiança, e que essa calma é a base para agir com serenidade numa emergência. De Crée e Jones observam que a técnica ainda tem de funcionar contra um agressor provavelmente mais forte. Eles descrevem a execução correta como controlada e econômica, sem espetáculo. O kata não foi concebido como sistema completo de combate.

As dezoito formas

SérieNºTécnicaSituação
Tandoku-dōsa1Tai-no-idōDeslocamento do corpo, pela direita e pela esquerda
Tandoku-dōsa2Tsugi-ashiPasso à frente e atrás, iniciado pelo pé que segue
Tandoku-dōsa3Migi (hidari) sabakeGiro para a direita ou para a esquerda
Tandoku-dōsa4Migi (hidari) mae-sabakeGiro para a frente, à direita ou à esquerda
Tandoku-dōsa5Migi (hidari) haraiVarrida para baixo, à direita ou à esquerda
Tandoku-dōsa6Migi (hidari) mawareGiro completo para trás, num sentido ou no outro
Tandoku-dōsa7Mae-shizume, migi-shizume, hidari-shizumeAbaixamento do centro à frente e nas duas diagonais
Tandoku-dōsa8Hiza-ateGolpe com o joelho, com kiai
Ridatsu-hō9Katate-tekubi-doriUke segura um pulso com uma das mãos
Ridatsu-hō10Ryōte-katate-doriUke segura uma das mãos com as duas mãos
Ridatsu-hō11Shishi-gyaku-doriUke agarra os quatro dedos e os dobra para trás
Ridatsu-hō12Ude-kakae-doriUke envolve e prende o braço
Ridatsu-hō13Ushiro-doriUke agarra por trás
Seigo-hō14Ude-gyaku-doriUke agarra o braço com as mãos invertidas
Seigo-hō15Ushiro-eri-doriUke agarra a gola por trás
Seigo-hō16Ushiro-kubi-himo-jimeUke estrangula por trás com o cordão; a saída inclui hiza-ate
Seigo-hō17Ushiro-doriUke agarra por trás; única forma que termina em projeção
Seigo-hō18Kyōhaku-doriUke exige a bolsa sob ameaça de faca, em voz alta
Relação conforme a tabela de De Crée e Jones, montada sobre arquivo de pesquisa do próprio Carl De Crée e sobre o livro de Jirō Nangō de 1944. A mesma sequência aparece no Judo Information Site. A sétima forma reúne três nomes sob um número só, e alguns textos a desdobram em duas, o que leva a contagem a dezenove; De Crée e Jones tratam dezoito como o número correto. A oitava, hiza-ate, é um atemi, embora venha na série de deslocamentos.

Quando foi criado

Jigoro Kano morreu em maio de 1938. Em dezembro daquele ano Jirō Nangō assumiu a direção do Kodokan, cargo que ocupou até 1946. Nangō era sobrinho de Kano, filho de sua irmã mais velha, entrou no Kodokan aos sete anos e chegou a segundo dan. Fez carreira na Marinha Imperial e alcançou o posto de contra-almirante.

Foi Nangō quem mandou criar o exercício. O trabalho foi concluído em 1943, no meio da guerra. Naquele mesmo ano o Kodokan publicou um livreto fino, organizado por Hirokazu Nomura, com uma folha solta de fotografias. Em 1944 saiu o livro de Nangō pela Ōbunsha, com quarenta e cinco páginas de justificativa e história antes das explicações técnicas. Nas fotografias Masako Noritomi aparece como tori e Fusatarō Sakamoto como uke.

O currículo feminino do Kodokan até então girava em torno de educação física, saúde e etiqueta, com pouca coisa de defesa pessoal. Fukuda escreveu que aprender a se proteger sem arma era necessário e que muitas mulheres não sabiam como fazê-lo. O joshi goshin-hō respondia a essa demanda.

De Crée e Jones apontam no livro de Nangō passagens nacionalistas e xenófobas. Pela leitura dos dois autores, Nangō justifica o exercício como defesa da mulher japonesa contra homens estrangeiros. Eles argumentam que rejeitar o kata por causa das convicções de quem o encomendou não faz sentido, e que ele deve ser preservado com o contexto histórico à vista.

Quem trabalhou nele

No prefácio de seu livro, Nangō deixa claro que não construiu o kata. Ele agradece a Kyūzō Mifune, então nono dan, a Noriko Watanuki, chefe da seção feminina e filha mais velha de Kano, a Ariya Honda e Yoshimaro Handa, ambos oitavos dans, a Fusatarō Sakamoto, a Masako Noritomi, então quinto dan feminino, a Hisako Miyagawa e a outras pessoas não nomeadas.

De Crée e Jones examinaram o perfil de cada um e concluíram que o trabalho técnico coube provavelmente a cinco pessoas: Masako Noritomi, Ariya Honda, Kyūzō Mifune, Fusatarō Sakamoto e Kaichirō Samura. Sakamoto tinha menkyo kaiden em Tenjin Shin’yō-ryū jūjutsu, recebido em 1913, o que o coloca entre os mais capazes de formular solturas de mão. Honda ensinava defesa pessoal a mulheres desde os anos 1930. Mifune já havia desenvolvido seu próprio goshin jutsu anos antes do joshi goshin-hō, entre 1937 e 1942 ou antes disso.

Noritomi é a figura central da transmissão. Nascida em 1913, entrou no Kodokan em 1929 como uchi-deshi de Kano. Em 1940 foi a primeira mulher a chegar ao quinto dan, teto que então valia para mulheres, e ficou sozinha nesse posto até 1953. Morreu em 1982. Ela aparece como tori em todo o material fotográfico original e virou a principal professora do kata.

Keiko Fukuda incluiu o próprio nome entre os autores em seu livro de 1973. Nenhuma fonte japonesa confirma essa participação. Em 1943 ela tinha oito anos de prática e havia sido nomeada instrutora um ano antes. Numa palestra de 2009 descreveu-se como observadora sentada no canto do dōjō enquanto os professores mais antigos experimentavam técnicas, e nomeou Hideichi Nagaoka, Kaichirō Samura e Kyūzō Mifune como os que faziam o trabalho. De Crée e Jones consideram improvável uma contribuição técnica dela e reconhecem seu papel na preservação: emigrou para os Estados Unidos em 1965 e manteve o kata no programa do acampamento de verão que dirigia desde 1973.

Sumiyuki Kotani não aparece entre os nomes ligados à criação. Ele assina, com Yoshimi Ōsawa e Yūichi Hirose, o Kata of Kodokan Judo de 1968, uma das descrições técnicas mais detalhadas do kata.

Por que sumiu das listas

Shin’ichi Oimatsu, que dirigiu por anos a biblioteca e o museu do Kodokan, listou o joshi goshin-hō entre os nove kata oficiais em 1982. O Jūdō Daijiten publicado pelo Kodokan em 1999 também apresenta nove, mas troca o joshi goshin-hō pelo gō-no-kata. Daigo repetiu a segunda lista na série de artigos sobre kata que publicou entre 2008 e 2009, sem mencionar o joshi goshin-hō uma vez sequer.

A relação que o Kodokan publica hoje em kdkjd.org também tem nove nomes, e o nono é o kodomo-no-kata, de 2019. O joshi goshin-hō não aparece nela. Todas essas listas têm nove nomes, e o que muda de uma para outra é o último.

Fora do Japão o kata circulou pouco. Reino Unido, França e Austrália tiveram professoras formadas nele no Kodokan, que o ensinaram em escala limitada. No Kodokan dos anos 1970 as iniciantes estudavam kime-shiki para o terceiro kyū e depois o joshi goshin-hō para o segundo. Essa exigência desapareceu. Quando as competições internacionais de kata se firmaram, nos anos 1990, e o interesse pela prática voltou a crescer, o joshi goshin-hō ficou de fora, porque nunca foi modalidade de competição.

A transmissão também ficou sem gente. Noritomi e Naoko Miyajima morreram cedo, Haruko Niboshi morreu em 1998, Fukuda estava nos Estados Unidos. Em 2011 De Crée e Jones registraram Katsuko Umezu, oitavo dan feminino, como a última especialista tida por ainda em atividade no Kodokan, e relataram que outras professoras procuradas por eles não se sentiam seguras para ensinar o kata nem quiseram discuti-lo. Os dois autores acrescentam uma hipótese sobre a associação com Nangō, cujo nome praticamente saiu da história do Kodokan, e a apresentam como interpretação.

Não confundir os nomes

Quatro exercícios de defesa pessoal convivem no sistema do Kodokan e têm nomes parecidos.

  • 女子護身法, joshi goshin-hō, 1943. Dezoito técnicas, uma série sozinha e duas em dupla, tudo em pé. Uke usa cordão e faca.
  • 講道館護身術, Kodokan goshin jutsu, 1956. Vinte e uma técnicas, todas em dupla. Uke usa faca, bastão e pistola. Foi criado como atualização moderna do kime-shiki e do kime-no-kata.
  • 極の形, kime-no-kata. Vinte técnicas, parte ajoelhada e parte em pé, com faca e espada. As situações são de época.
  • 極式, kime-shiki. Dez técnicas em dupla, integradas ao seiryoku zen’yō kokumin taiiku. Foi muito praticado na seção feminina, o que fez alguns autores tratá-lo como exercício de mulheres. Não foi criado para isso.

Nos anos 1950 circularam os nomes 婦女子用護身の形, fujoshi-yō goshin-no-kata, e 一般用護身の形, ippan-yō goshin-no-kata, para os dois primeiros. Caíram em desuso. As formas “Kodokan joshi goshin-hō” e “shin kime-shiki” nunca foram oficiais.

Fontes: Carl De Crée e Llyr C. Jones, Kōdōkan Jūdō’s Inauspicious Ninth Kata: The Joshi goshinhō, “Self-Defense Methods for Women”, partes 1, 2 e 3, Archives of Budo, vol. 7, nº 3, 2011, pp. 105–123, 125–137 e 139–158. Neil Ohlenkamp, verbete sobre o joshi jūdō goshin-hō no Judo Information Site, consultado para conferir a relação das dezoito técnicas. Para o exame de faixa, o edital do Kodokan “2025 Summer Kodokan Dan Promotion Examination for Kodokan International Division”, cuja tabela de kata por grau, do primeiro ao oitavo dan, não inclui o joshi goshin-hō, e o 講道館昇段資格に関する内規 de 2015 com a sua versão feminina de 2016, conforme resumidos na Wikipédia em japonês. Para o caractere 護, o Shuowen Jiezi, que o analisa como 言 de sentido e 蒦 de som; para 法, o Wiktionary, que registra a divergência sobre o componente fonético. As informações atribuídas a Jirō Nangō, Joshi goshinhō, 1944, ao livreto do Kodokan organizado por Hirokazu Nomura em 1943, a Keiko Fukuda, Born for the Mat, 1973, a Sumiyuki Kotani e outros, Kata of Kodokan Judo, 1968, a Kazuo Itō, Joshi jūdō: goshinjutsu, 1965, a Masako Noritomi, Joshi jūdō kyōhon, 1972, a Pat Harrington, Judo a pictorial manual, 1987, ao Illustrated Kōdōkan Jūdō de 1986 e a Shin’ichi Oimatsu, 1982, são citadas a partir do levantamento de De Crée e Jones, sem consulta aos originais. A leitura de que a associação com Jirō Nangō contribuiu para o desaparecimento do kata é interpretação desses dois autores.