Gonosen-no-kata: a forma dos contra-ataques

O gonosen-no-kata é um exercício em dupla com doze contra-ataques. Uke ataca com uma projeção conhecida, tori deixa o ataque acontecer e responde com outra projeção que aproveita o desequilíbrio criado por quem atacou.

O Kodokan nunca incorporou esse exercício. Ele não consta entre os kata oficiais da instituição e não entra na competição de kata. Ainda assim é praticado na Europa há quase um século e continua aparecendo em exame de faixa preta em algumas federações, principalmente na França e no Reino Unido.

A origem é disputada. Carl De Crée concluiu em 2015 que o registro mais antigo era uma demonstração feita em Londres em 1926, e em 2024 revisou a própria conclusão a partir de material novo, que aponta para a Universidade Waseda, em Tóquio, em novembro de 1915.

O nome

後, go, significa atrás, depois, o que vem em seguida. O caractere reúne 彳, que indica o caminho e o passo, 幺, o que é pequeno, e 夊, um pé que anda devagar. O Shuowen Jiezi define 後 como 遲, atrasar-se, e o comentário clássico lê a junção como o passo curto de quem fica para trás.

先, sen, é o oposto. O caractere junta 之, o pé que sai andando, sobre 儿, as pernas de uma pessoa: o pé que avança à frente do corpo. O Shuowen define 先 como 前進, avançar adiante. No Judô o termo passou a designar a iniciativa: quem tem sen é quem comanda o que está acontecendo.

後の先, gonosen, é a iniciativa retomada depois. Uke começa, e é justamente o começo de uke que entrega a tori a condição de terminar. 形, kata, é forma, o mesmo caractere que fecha o nome dos kata do Judô.

Os três tempos da iniciativa

O Judô costuma descrever três momentos em que a iniciativa pode ser tomada. Em 先の先 (sen-no-sen) ela pertence a quem começa o ataque, o que também se chama shikake-waza, técnica de entrada. Em 先先の先 (sensen-no-sen) a resposta sai no mesmo instante em que o outro inicia, e o termo usado para esse encontro é ki no deai. Em 後の先 (gonosen) o ataque já saiu e tori age sobre ele, o que corresponde ao ōji-waza, a técnica que responde na medida do que veio.

Esses três termos aparecem com sentidos trocados em boa parte da literatura, o que exige conferir qual definição cada autor usa.

De Crée acrescenta uma ressalva sobre o nome do kata. Nos artigos de Kazuyoshi Takahashi (1885–1942), que estão na base técnica do exercício, os termos sen e gonosen não aparecem, e esse vocabulário era pouco usado por autores japoneses de Judô da era Taishō. A ligação entre o nome e a teoria da iniciativa pode ser atribuição posterior, sem escolha deliberada por trás. Praticar as mesmas técnicas em sen-no-sen não configura erro histórico, embora exija mais habilidade.

Como se pratica

A abertura segue o desenho dos outros kata de projeção. Tori e uke se cumprimentam, se encontram no centro em shizen-hontai, e tori adianta meio passo com o pé direito, em migi-shizentai.

A descrição francesa mais antiga do exercício pede ritmo uniforme: o ataque de uke vai até o fim, sem pressa e sem crispação, e o contra-ataque de tori sai muito rápido. As quedas devem ser as mesmas do nage-no-kata, mas aqui não há repetição para o outro lado e tori e uke não trocam de papel. Depois de cada projeção os dois retomam a mesma posição.

As doze formas se dividem por tipo de técnica atacante. As seis primeiras são ashi-waza, técnicas de perna. Da sétima à décima primeira são koshi-waza, técnicas de quadril. A décima segunda é classificada como kata-waza, técnica de ombro, categoria do sistema de ensino de Kawaishi que o Kodokan não usa: ali as projeções de ombro são te-waza. A passagem de um grupo para o outro acontece sem parada.

As doze formas

NºAtaque de ukeContra-ataque de tori
1Ō-soto-gariŌ-soto-gari
2Hiza-gurumaHiza-guruma
3Ō-uchi-gariDe-ashi-harai
4De-ashi-haraiDe-ashi-harai, à esquerda
5Ko-soto-gakeTai-otoshi
6Ko-uchi-gariSasae-tsurikomi-ashi, à esquerda
7Kubi-nageUshiro-goshi
8Koshi-gurumaUki-goshi, à esquerda
9Hane-goshiSasae-tsurikomi-ashi, à esquerda
10Harai-goshiUtsuri-goshi, à esquerda
11Uchi-mataSukui-nage
12Kata-seoiSumi-gaeshi
Relação organizada por Carl De Crée em 2015 a partir das fontes europeias mais antigas. Cada linha tem variantes documentadas, listadas abaixo.

As divergências entre publicações recaem quase sempre nos mesmos pontos.

  • Forma 3. Vários autores indicam okuri-ashi-harai como contra-ataque. A British Judo Association pede ni-dan-ko-soto-gari.
  • Forma 5. Lamotte e Marcelin registram ō-soto-gake como ataque, no lugar de ko-soto-gake.
  • Forma 6. Os mesmos autores indicam hiza-guruma à esquerda como contra-ataque.
  • Forma 7. A British Judo Association substitui kubi-nage por tsurikomi-goshi no papel de ataque.
  • Forma 11. Boa parte da literatura chama o contra-ataque de te-guruma. A British Judo Association trabalha com uma esquiva, e seus dois documentos divergem: o programa de kata de 2025 pede uchi-mata-sukashi e o formulário de exame pede sukashi tai-otoshi.
  • Forma 12. O ataque aparece também como seoi-nage ou ippon-seoi-nage.

Uma origem em disputa

Os livros de Judô do século XX dão datas de criação que vão de 1910 a 1933, quase sempre sem fonte.

A base técnica é atribuída a Kazuyoshi Takahashi, instrutor de Judô na Universidade Waseda. Entre maio de 1919 e dezembro de 1921 ele publicou doze artigos na revista oficial do Kodokan aprofundando a teoria dos contra-ataques. Nenhum desses textos apresenta uma série fechada de formas, o que era esperado: Kano estava vivo, e criar kata oficial cabia à direção do Kodokan.

O documento europeu mais antigo é o livro de registros do Budōkwai de Londres, com o programa da 9ª exibição anual do clube, em 1926. O kata foi demonstrado ali por Keishichi Ishiguro (1897–1974), formado em Waseda e residente em Paris desde 1924, com um parceiro identificado apenas como Sukeno. Em 2015 De Crée considerava possível que os britânicos tivessem simplesmente dado um nome japonês a uma sequência improvisada de contra-ataques.

Em 2024 De Crée publicou uma revisão dessa análise. Material novo situa a primeira aparição do exercício em novembro de 1915, no 20º torneio de Judô da Universidade Waseda, em Tóquio, demonstrado por Moriya Endō (1896–1950) e um parceiro de sobrenome Nagae. O registro está numa edição de janeiro de 1916 do Waseda Gakuhō, o boletim da universidade, e antecede a demonstração de Londres em dez anos e quatro meses. Ali o exercício se chama kaeshi-no-kata. O nome 後の先 aparece na revista oficial do Kodokan de fevereiro de 1917, que noticia o torneio de Waseda do ano anterior, e essa é a única menção conhecida da instituição ao exercício. Ele voltou a ser apresentado em competições no Japão durante a era Taishō sempre que uma equipe de Waseda participava. Os candidatos mais prováveis à autoria são os instrutores-chefes de Waseda Ikkan Miyakawa (1885–1944) e Kazuyoshi Takahashi, com participação de alunos, entre eles o próprio Endō.

Como chegou à Europa

Mikinosuke Kawaishi (1899–1969) formou-se em Waseda em 1924, passou pela Grã-Bretanha e se estabeleceu na França. Ele e Ishiguro eram amigos desde a universidade. O documento mais antigo que liga Kawaishi ao kata é britânico: o programa do encontro entre o clube de Judô de Oxford e uma equipe alemã, em 29 de novembro de 1932, que anuncia uma exibição de gonosen-no-kata por Kawaishi e Masutarō Ōtani.

Na França o nome só aparece no fim da década de 1930. Moshé Feldenkrais menciona o gonosen-no-kata em A.B.C. du Judo, de 1941, sem explicá-lo, e esse livro foi referência para muitos praticantes europeus da primeira geração. A associação definitiva veio com o livro de kata de Kawaishi, de 1956, no qual ele trata o exercício como o terceiro randori-no-kata, classificação que nunca teve respaldo do Kodokan.

Desde que Kawaishi começou a conceder faixas pretas na França, o gonosen-no-kata era obrigatório no exame de 3º dan, o que explica boa parte da difusão europeia. Onde a influência de Kawaishi durou mais, o kata permaneceu no programa de graduação. Onde instrutores enviados pelo Kodokan assumiram a formação, ele saiu.

Sem forma padronizada

Como o Kodokan nunca padronizou o exercício, cada país desenvolveu o seu jeito, e quem for praticar precisa saber qual referência sua federação adota.

As diferenças começam no ritmo. Em algumas versões uke ataca em velocidade normal e tori contra-ataca de imediato. Em outras uke projeta tori uma primeira vez, ataca de novo e só então é contra-atacado. Há ainda versões que repetem o contra-ataque em câmera lenta antes de executá-lo em velocidade normal. As técnicas podem ser demonstradas paradas ou em deslocamento.

Na França o gonosen-no-kata é uma das quatro opções do exame de 4º dan: o candidato apresenta o kime-no-kata mais um kata à sua escolha entre nage-no-kata, katame-no-kata, Kodokan goshin jutsu e gonosen. No Reino Unido a British Judo Association mantém formulário próprio de exame, com quatro níveis e nota mínima crescente, sobre a lista de doze pares que ela mesma fixou. Na Alemanha, conforme levantamento de De Crée, o nage-waza ura-no-kata ocupou o lugar do gonosen-no-kata nas exigências de 3º dan.

Não confundir os nomes

Escrito em alfabeto latino, o nome se aproxima de outros três.

  • 後の先の形, gonosen-no-kata. O estudo de contra-ataques tratado nesta página.
  • 剛の形, gō-no-kata. 剛 significa dureza e resistência. É um exercício de oposição de força que termina em jū, sem relação com contra-ataques.
  • 五の形, itsutsu-no-kata. 五 é o número cinco, que também se lê go.
  • 返し方, kaeshi-kata. Aqui o segundo caractere é 方, maneira de fazer, não 形, forma. O termo designa o conjunto dos contra-ataques, como hairi-kata designa as entradas. Da leitura de 方 como 形 nasceu no Reino Unido a ideia de um kaeshi-no-kata próprio, atribuído a Yukio Tani, atribuição que De Crée considera improvável. O 返しの型 demonstrado em Waseda em 1915 é, para ele, o próprio gonosen-no-kata.

Outros dois exercícios tratam do mesmo assunto e também estão fora da lista oficial: o nage-waza ura-no-kata, atribuído a Kyūzō Mifune, e o katame-waza ura-no-kata, montado por Kazuo Itō. De Crée reúne os três sob a designação de formas órfãs de contra-ataque. A relação de kata que a associação adota está na página de kata.

Esta página não indica gravação de referência. O que circula em vídeo são execuções de federações e de clubes, cada uma sobre a versão da sua própria escola, e não há registro de procedência estabelecida a que remeter.

Fontes: Carl De Crée, Kōdōkan Jūdō’s Three Orphaned Forms of Counter Techniques – Part 1: The Gonosen-no-kata – “Forms of Post-Attack Initiative Counter Throws”, Archives of Budo, vol. 11, 2015, pp. 93–123, e A critical update to earlier research findings about the historical roots of gonosen-no-kata, Revista de Artes Marciales Asiáticas, vol. 19, n. 2, 2024, pp. 129–150, os dois lidos no original. Fédération Française de Judo, Référentiel technique 2023/2024 – Guide de jugement pour les examens de grades, para a exigência de 4º dan. British Judo Association, Kata Award Scheme de 1º de março de 2025 e o formulário de exame de gonosen-no-kata, para a lista britânica de doze pares. Para a análise dos caracteres 後 e 先, o Shuowen Jiezi e o comentário de Duan Yucai. As informações atribuídas a Mikinosuke Kawaishi, Les Katas Complets de Judo, 1956, a Lamotte e Marcelin e a Moshé Feldenkrais, A.B.C. du Judo, 1941, são citadas a partir do levantamento de De Crée, sem consulta aos originais.