Nage-waza ura-no-kata: a forma do avesso das projeções

O nage-waza ura-no-kata é um exercício em dupla de quinze formas. Em cada uma delas uke ataca com uma projeção e tori responde revertendo o ataque com outra projeção. As quinze formas se dividem em três grupos de cinco: técnicas de mão, técnicas de perna e técnicas de quadril.

O kata é atribuído a Kyūzō Mifune (1883–1965) e não consta da lista oficial do Kodokan. Não entra em competição de kata. Fora do círculo de alunos e descendentes técnicos de Mifune, sua prática sempre foi rara.

A documentação é escassa e boa parte dela existe só em japonês, em edições esgotadas. O único estudo acadêmico dedicado ao kata é o de Carl De Crée, de 2015. Onde as fontes divergem, este texto diz que divergem.

O nome

裏, ura, é o caractere que define o exercício. O Shuowen Jiezi o define como 衣內也, o lado de dentro da roupa, e analisa a construção como 从衣里聲: 衣, roupa, entra pelo sentido, e 里 entra pelo som. O forro é a parte da veste virada para dentro, que não aparece. Daí o caractere passou a significar o avesso, o reverso. No Judô, ura-waza nomeia a técnica que responde a um ataque virando-o do avesso, e funciona como sinônimo de kaeshi-waza.

技, waza, é técnica. O caractere junta 扌, forma reduzida de 手, a mão, com 支, que entra pelo som. O Shuowen define 技 como 巧也, habilidade. Mifune escrevia o nome com o caractere antigo 業 no lugar de 技, 投業裏の形. Seus alunos passaram a usar 技.

O nome mudou nas mãos do próprio autor. Na fonte mais antiga que se conhece o kata aparece como 乱取投業裏の形, randori nage-ura-no-kata: Mifune o considerava um exercício da mesma família do nage-no-kata e do katame-no-kata. Nas publicações dos anos 1950 o prefixo desaparece e sobram as duas formas usadas hoje, nage-ura-no-kata e nage-waza ura-no-kata.

形, kata, significa forma. A análise do caractere está na página do Gō-no-kata.

Como funciona

Quem começa o movimento é uke. Ele ataca com uma projeção do repertório corrente do Judô, e tori só age depois que o ataque está em curso. Todas as quinze formas trabalham nesse tempo, chamado go-no-sen, a iniciativa tomada depois da iniciativa do outro.

A estrutura acompanha de perto o nage-no-kata. Os dois têm quinze técnicas, mas o nage-no-kata as reparte em cinco grupos de três, incluindo as séries de sutemi-waza. Aqui são três grupos de cinco e as duas séries de sutemi-waza ficam de fora, porque quem ataca sacrificando o próprio corpo já está no chão quando o contra-ataque começaria. Como resposta o sutemi-waza continua no kata: yoko-guruma, sumi-gaeshi e yoko-wakare estão entre os contra-ataques. Mifune também inverteu a ordem dos grupos: no nage-no-kata vem quadril e depois perna, aqui vem perna e depois quadril.

As técnicas de nage-no-kata que reaparecem aqui como ataque perdem os atemi. Para De Crée a razão provável é que, num kata de contra-ataque, um golpe inicial de uke confundiria quem é o atacante. Cada forma se executa de um lado só e os papéis não se invertem, mas vários contra-ataques precisam ser feitos à esquerda contra um ataque iniciado à direita, sob pena de não funcionarem.

Mifune declarou dois objetivos para a prática: mostrar que o Judô não tem limite e usar o exercício para ilustrar esse princípio. De Crée insiste que o alvo é o myōwaza, a técnica refinada que não se explica pela mecânica. O kata nunca foi montado para ser pontuado por banca.

As quinze formas

GrupoNºAtaque de ukeContra-ataque de tori
Te-waza1Uki-otoshiTai-otoshi (esquerda)
Te-waza2Ippon-seoi-nageYoko-guruma
Te-waza3Kata-gurumaSumi-gaeshi
Te-waza4Tai-otoshiKo-tsuri-goshi (esquerda)
Te-waza5Obi-otoshiŌ-guruma
Ashi-waza6Okuri-ashi-haraiTsubame-gaeshi (esquerda)
Ashi-waza7Ko-uchi-gariHiza-guruma (esquerda)
Ashi-waza8Ō-uchi-gariŌ-uchi-gari-gaeshi
Ashi-waza9Sasae-tsurikomi-ashiSumi-otoshi
Ashi-waza10Uchi-mataTai-otoshi (esquerda)
Koshi-waza11Hane-goshiKari-gaeshi
Koshi-waza12Harai-goshiUshiro-goshi
Koshi-waza13Han-goshiUtsuri-goshi (esquerda)
Koshi-waza14Uki-goshiYoko-wakare
Koshi-waza15Ō-goshiIppon-seoi-nage
Relação organizada por Carl De Crée a partir dos livros e filmes de Mifune, conferida contra a apostila de Toshiyasu Ochiai reproduzida em material didático do Judoverband Sachsen. De Crée romaniza a forma 13 como utsushi-goshi; as fontes alemãs e a Wikipédia em inglês escrevem utsuri-goshi, que é a leitura corrente de 移腰.

Alguns pontos da relação exigem cuidado.

  • Na forma 8, no filme de 1955, Mifune contra-ataca com tomoe-nage em vez de ō-uchi-gari-gaeshi. O filme mais antigo e os livros dele trazem ō-uchi-gari-gaeshi. Como Mifune nunca declarou a troca, De Crée recomenda manter a versão dos livros.
  • No filme mais antigo, kata-guruma vem antes de seoi-nage, ordem invertida nas publicações posteriores.
  • Han-goshi é o nome que Mifune deu a um tsurikomi-goshi com o quadril entrando só até a metade. O termo não é padrão do Kodokan.
  • Kazuo Itō acrescentou uma décima sexta forma, ō-soto-gari contra-atacado com ō-goshi, no livro que publicou em 1970. Nenhum outro aluno de Mifune a manteve e nada nos escritos dele autoriza o acréscimo, por isso De Crée recomenda deixá-la de fora.

De onde veio

Mifune entrou no Kodokan em 26 de julho de 1903, aos 20 anos, e no ano seguinte passou um período na escola preparatória da Universidade Waseda. Ali foi contemporâneo de Kazuyoshi Takahashi, que se dedicava ao estudo dos ura-waza. A convite de Kano, Takahashi publicou entre 1919 e 1921 uma série de artigos sobre o assunto em Yūkō-no-Katsudō, a revista oficial do Kodokan. De Crée trata esses artigos como a raiz intelectual do kata e observa que Takahashi não menciona Mifune, o que sugere que a pesquisa dele veio antes.

A data de criação não está estabelecida. O kata contém sumi-otoshi, técnica que Mifune desenvolveu quando era 7º dan, grau que obteve em 1923, o que fixa um limite inferior. De Crée estima que Mifune concluiu o exercício entre 1934 e 1938, quando tinha entre 51 e 55 anos. Wolfgang Dax-Romswinkel sugere os anos 1920 ou 1930, sem apresentar evidência direta.

Ninguém nega que o kata seja de Mifune, mas o tamanho da participação de outra pessoa é discutido. Numa entrevista de 2000, Shizuya Satō afirmou que o kata nasceu de pesquisa conjunta entre Mifune e seu aluno Kazuo Itō. De Crée rejeita a versão: Itō não era o discípulo mais antigo, nunca aparece como uke de Mifune em demonstração filmada, e no prefácio do próprio livro sobre o assunto não reivindica esse papel.

Com o companheiro de solo a divisão é outra. O katame-waza ura-no-kata saiu do mesmo livro de Itō, de 1970, e De Crée o atribui a Itō, não a Mifune. O material de contra-ataque que os dois exercícios usam é de Mifune; o kata de solo, montado sobre ele, é de Itō. A página do katame-waza ura-no-kata trata dessa distinção em detalhe.

Kano e o Kodokan

Mifune teria apresentado o kata a Kano, que morreu em maio de 1938. A história vem da revista Kindai Jūdō, numa reportagem de 1983. De Crée não achou nada escrito por Kano nem por Mifune sobre esse encontro e trata a apresentação como alegação. A demonstração filmada mais antiga que se conhece dá um limite por outro caminho: Mifune aparece nela como 9º dan, grau que Kano lhe concedeu pessoalmente em dezembro de 1937. De Crée situa o filme entre 1937 e 1942.

A circunstância exata dessa apresentação não está documentada. Circulam duas explicações para o kata nunca ter sido incorporado. Uma diz que Kano não gostou do que viu, talvez porque o exercício sirva mais ao desenvolvimento técnico puro do que aos fins pedagógicos dele. A outra diz que Kano estava em vias de aceitá-lo e morreu antes. De Crée considera as duas sem sustentação: não há fonte escrita ou gravada de Kano, de Mifune ou de alunos diretos deles que ateste qualquer uma delas, e ele as classifica como boato e conjectura.

De Crée observava em 2015 que o Kodokan não aprovava um kata novo desde 1956, ano do Kodokan goshin jutsu. O Jūdō Daijiten, dicionário de 1999 organizado por Yukimitsu Kanō e outros dirigentes do Kodokan, descreve o exercício em cerca de uma página e meia, informa que ele reúne quinze formas e declara que não é kata oficial do Judô Kodokan.

Não confundir os nomes

Quatro coisas diferentes aparecem misturadas na literatura.

  • 後の先, go-no-sen, é um tempo de ação, não um kata. Nomeia a iniciativa tomada depois que o adversário se comprometeu. Convive com sen-no-sen e sen-sen-no-sen. Todas as formas do nage-waza ura-no-kata operam nesse tempo, e a federação de Judô de Württemberg chega a classificar o exercício num grupo que chama de go-no-sen-no-kata.
  • Gonosen-no-kata é outro exercício de contra-ataques, conhecido na Europa ocidental. O registro mais antigo que De Crée encontrou é de novembro de 1915, em Tóquio, num programa ligado ao 20º torneio de Judô da Universidade Waseda. Na Europa ele só aparece em 1926, no Budokwai de Londres. Em 2015 De Crée punha em dúvida a origem japonesa do exercício e em 2024 retirou a dúvida. A página dele está aqui.
  • Nage-no-kata ura-waza é o que judocas japoneses costumam entender quando ouvem a expressão gonosen-no-kata.
  • Katame-waza ura-no-kata é o companheiro de solo, contra-ataques a imobilizações e a estrangulamentos, tratado na terceira parte do estudo de De Crée e atribuído por ele a Kazuo Itō.

A confusão alcançou autores de peso. Tadao Ōtaki e Donn Draeger, num livro de referência sobre kata, tratam gonosen-no-kata e nage-waza ura-no-kata como se fossem o mesmo exercício.

Quem preserva e onde se pratica

A transmissão passou por alunos diretos de Mifune. Yoshiyuki Kuhara (1906–1985) manteve o kata em prática no seu Shūdōkan, junto com o gō-no-kata, e ensinou o sobrinho Toshiyasu Ochiai, que segue ensinando em Bunkyō-ku desde a morte do tio. Setsuo Sugata (1917–1999) sucedeu Mifune à frente do departamento de Judô da Universidade Meiji e manteve o exercício vivo ali. Kazuo Itō o transmitiu dentro da IMAF.

Ochiai ensina o kata todos os anos para o Dōyūkai e preparou uma apostila de dezesseis páginas com desenhos de cada técnica, distribuída sem custo. Em fevereiro de 2008 ensinou o kata numa clínica para professores em Norwalk, na Califórnia.

A Alemanha é o país onde o kata mais se firmou fora do Japão. Ele entrou no programa de exame de 3º dan da Federação Alemã de Judô no lugar do gonosen-no-kata, como uma das opções ao lado do kime-no-kata, e De Crée registrava em 2015 que era o único país a incluí-lo em programa de graduação. Os documentos alemães de 2024 divergem entre si: as exigências para dan indicam katame-no-kata no 3º dan e não citam o nage-waza ura-no-kata em nenhum grau, enquanto o conceito de kata da mesma federação o mantém como o único exercício fora da lista do Kodokan que segue no programa. O próprio conceito de kata resolve o conflito a favor do outro documento, dizendo que em caso de discrepância valem sempre as exigências para dan em vigor.

Registros em vídeo

Existem duas gravações de Mifune executando o kata, as duas com Sei’ichi Shirai como uke.

  • A mais antiga integra o filme Jūdō Higi ― Nihon Butoku, que De Crée data entre 1937 e 1942. Mifune está no auge, entre 54 e 59 anos, ainda 9º dan. A saudação de abertura e de encerramento é feita ajoelhado, à maneira do koshiki-no-kata.
  • A mais conhecida é de 1955, publicada em DVD em 2005 com o título Shingi Mifune Jūdan: Jūdō no Shinzui. Mifune tem cerca de 72 anos. A saudação passa a ser em pé, como todos fazem desde então, e aparece a substituição por tomoe-nage.

A série de DVDs de kata publicada pelo Kodokan não inclui este exercício. Há demonstrações posteriores de Ochiai e de Sugata em gravações de circulação restrita e vários registros amadores na internet. De Crée avalia que nenhuma execução por outra pessoa alcança a de Mifune, e recomenda procurar instrutor formado no kata, porque muita coisa passa despercebida a quem só assiste.

Fontes: Carl De Crée, Kōdōkan Jūdō’s Three Orphaned Forms of Counter Techniques ― Part 2: The Nage-waza ura-no-kata, Archives of Budo, vol. 11, pp. 125–154, 2015, consultado no original. Carl De Crée, A critical update to earlier research findings about the historical roots of gonosen-no-kata, Revista de Artes Marciales Asiáticas, vol. 19, n. 2, pp. 129–150, 2024, consultado no original. Judoverband Sachsen, Lehrhilfe Nage-waza-ura-no-kata, 2011, baseado na apostila de Toshiyasu Ochiai. Deutscher Judo-Bund, Anforderungen an Dan-Grade im DJB e Kata-Konzept im Deutschen Judo-Bund, ambos de 2024. Württembergischer Judo-Verband, página sobre o kata. Para a datação das graduações de Mifune, a tabela de exames do Kodokan reproduzida na Wikipédia em japonês. Para a análise dos caracteres, Shuowen Jiezi. As informações atribuídas a Kyūzō Mifune, ao Jūdō Daijiten de 1999, a Kazuo Itō, a Shizuya Satō, a Kazuyoshi Takahashi, a Wolfgang Dax-Romswinkel e à revista Kindai Jūdō de março de 1983 são citadas a partir do levantamento de De Crée e da Wikipédia em japonês, sem consulta aos originais. Não consultamos Canon of Judo nem os filmes de Mifune.