Nage-no-kata: a forma dos arremessos

O nage-no-kata é um exercício em dupla com quinze arremessos, três de cada um dos cinco grupos em que o Judô divide as técnicas de projeção. Cada arremesso é executado dos dois lados, à direita e à esquerda. São trinta execuções do começo ao fim.

É o primeiro kata cobrado em exame de graduação. No Brasil aparece já na faixa verde, em partes. No Kodokan entra na prova de 1º dan. Também é uma das sete provas da competição de kata da Federação Internacional de Judô.

O Kodokan o chama também de randori-no-kata, forma do randori. O nome cobre o nage-no-kata e o katame-no-kata, montados na mesma época e com a mesma finalidade: dar ao praticante o princípio das técnicas que ele vai usar no treino livre.

O nome

投, nage, é lançar, arremessar, atirar em direção a um alvo. O Shuowen Jiezi analisa o caractere como 从手从殳, mão somada a 殳. O 殳 nomeia uma arma antiga de haste de bambu, comprida e sem lâmina, montada no carro de guerra e usada para golpear e afastar. A leitura clássica trata os dois componentes como componentes de sentido: a mão que arremessa o objeto. Parte da lexicografia moderna prefere ler 殳 como fonético. Em japonês o verbo é 投げる, nageru, e o conjunto das projeções é 投技, nage-waza.

の, no, é a partícula que liga os dois substantivos, como o “de” do português.

形, kata, é a forma tal como se apresenta a quem olha. A construção do caractere está detalhada na página do gō-no-kata, junto com a diferença em relação a 型, o outro caractere lido kata, usado sobretudo no karatê.

Como se pratica

Tori e uke começam de pé, a cerca de cinco metros e meio um do outro. Tomando o shōmen como referência, tori fica do lado esquerdo e uke do lado direito. Cumprimentam o shōmen, cumprimentam um ao outro em zarei, levantam-se e avançam um passo com o pé esquerdo.

A distância de partida muda conforme a técnica. Em uki-otoshi os dois se aproximam até cerca de sessenta centímetros e uke avança para tomar a pegada fundamental. Em seoi-nage a distância é de cerca de um metro e oitenta e uke ataca de outro jeito: levanta o punho direito acima da cabeça, avança dois passos e desce o punho sobre o tentō, o alto da cabeça de tori. Esse ataque com golpe aparece em quatro formas do kata: seoi-nage, uki-goshi, ura-nage e yoko-guruma.

Cada técnica é feita duas vezes, em espelho. Na primeira uke ataca ou pega pelo lado direito, na segunda pelo lado esquerdo. O nome da técnica nem sempre acompanha esse sentido: em sete das quinze formas o manual do Kodokan chama de esquerda a primeira execução e de direita a segunda, porque o nome segue o lado do corpo de tori que trabalha. São elas uki-goshi, okuri-ashi-harai, sasae-tsurikomi-ashi, ura-nage, yoko-gake, yoko-guruma e uki-waza. Terminado cada grupo de três, os dois voltam à posição inicial e ajustam o judogi.

Diferente do jū-no-kata e do gō-no-kata, aqui a projeção vai até o fim. Uke cai em todas as quinze formas, dos dois lados. A queda faz parte da técnica e é avaliada como parte dela.

As quinze formas

NºGrupoTécnicaSentido
1Te-wazaUki-otoshi (浮落)Queda flutuante
2Te-wazaSeoi-nage (背負投)Arremesso carregando nas costas
3Te-wazaKata-guruma (肩車)Roda sobre os ombros
4Koshi-wazaUki-goshi (浮腰)Quadril flutuante
5Koshi-wazaHarai-goshi (払腰)Quadril que varre
6Koshi-wazaTsurikomi-goshi (釣込腰)Quadril com puxada suspensa
7Ashi-wazaOkuri-ashi-harai (送足払)Varredura do pé que acompanha
8Ashi-wazaSasae-tsurikomi-ashi (支釣込足)Pé que apoia com puxada suspensa
9Ashi-wazaUchi-mata (内股)Coxa por dentro
10Ma-sutemi-wazaTomoe-nage (巴投)Arremesso em círculo
11Ma-sutemi-wazaUra-nage (裏投)Arremesso pelo reverso
12Ma-sutemi-wazaSumi-gaeshi (隅返)Inversão pelo canto
13Yoko-sutemi-wazaYoko-gake (横掛)Enganche lateral
14Yoko-sutemi-wazaYoko-guruma (横車)Roda lateral
15Yoko-sutemi-wazaUki-waza (浮技)Técnica flutuante
Ordem e nomes conforme o Kodokan KATA Textbook: Nage-no-Kata. A mesma ordem consta do critério de avaliação da Federação Internacional de Judô e do anexo de kata do regulamento de graduação da Federação Paulista de Judô.

Os cinco grupos são os mesmos em que o Kodokan classifica as projeções: técnicas de mão, de quadril, de perna e as duas famílias de sacrifício, em que tori derruba a própria posição junto com a de uke.

O que o kata treina

Kano comparou as duas práticas à redação e à gramática. Nenhuma das duas se sustenta sozinha.

No randori a resistência do parceiro esconde as etapas da técnica. O kuzushi, o tsukuri e o kake acontecem juntos e rápido demais para serem examinados. No kata a sequência é sempre a mesma e o momento do desequilíbrio fica visível para quem executa, para quem cai e para quem assiste de fora.

O golpe no alto da cabeça, que abre quatro das quinze formas, não existe no randori nem em competição. Quem só faz randori nunca precisou responder a ele. No lado esquerdo acontece coisa parecida: no randori quase todo mundo se acomoda no lado preferido, e o kata obriga aos dois.

Uke tem trabalho próprio. Ataca com compromisso real, sustenta o desequilíbrio até o ponto certo e cai inteiro. O manual do Kodokan inclui a maneira de receber a técnica entre o que o kata ensina, ao lado de kuzushi, tsukuri e kake.

De 1884 a 1960

O nage-no-kata foi montado por volta de 1884 e 1885, nos primeiros anos do Kodokan, junto com o katame-no-kata. Tinha dez formas.

Em julho de 1906 uma comissão do Dai Nippon Butokukai reuniu-se em Kyoto para fixar os kata de jūjutsu de todo o país. Kano presidiu. Participaram representantes de várias escolas de jūjutsu, e a intenção era produzir formas unificadas nacionalmente, aproveitáveis também pelas escolas de fora do Kodokan. Para De Crée e Jones, o encontro tratou na prática de três formas: o nage-no-kata, o katame-no-kata e o kime-no-kata. O jū-no-kata não foi incorporado à padronização naquela ocasião, e o gō-no-kata, que Kano considerava incompleto, ficou fora do processo.

O nage-no-kata passou de dez para quinze formas. A data dessa ampliação não está estabelecida. Parte das fontes secundárias a associa ao processo do Butokukai, em 1906, e nenhuma delas aponta documento do Kodokan que fixe o ano.

A relação de quinze também não ficou parada. Sukui-nage saiu e entrou kata-guruma. Tsuri-otoshi saiu e entrou sumi-gaeshi. As duas substituições aparecem em fontes secundárias japonesas, sem data e sem indicação de qual grupo do kata cada técnica ocupava.

A versão que se pratica hoje foi adotada pelo Kodokan em 10 de abril de 1960 e alterada em 1º de novembro de 2005. As duas datas constam da abertura do manual oficial do kata.

No exame de faixa

No Brasil o kata é dividido ao longo das faixas coloridas. O regulamento nacional para exame e outorga de faixas e graus da Confederação Brasileira de Judô, de 2023, pede:

  • Faixa verde, 3º kyū. O grupo de te-waza.
  • Faixa roxa, 2º kyū. O grupo de koshi-waza.
  • Faixa marrom, 1º kyū. O grupo de ashi-waza.
  • Faixa preta, 1º dan. O kata completo, como tori, mais uma descrição escrita do nage-no-kata na prova teórica.
  • Faixa preta, 2º dan. Uma série sorteada, como tori, além do katame-no-kata completo.

No Kodokan a divisão é outra. O regimento interno de graduação pede, para o 1º dan, apenas os grupos de te-waza, koshi-waza e ashi-waza. O kata inteiro, com os dois grupos de sacrifício, é exigido no 2º dan. Do 3º dan em diante a prova passa aos outros kata, na ordem katame-no-kata, jū-no-kata, kime-no-kata, Kodokan goshin jutsu, itsutsu-no-kata e koshiki-no-kata.

Na competição de kata

São sete os kata disputados hoje: nage-no-kata, katame-no-kata, kime-no-kata, jū-no-kata, Kodokan goshin jutsu, koshiki-no-kata e itsutsu-no-kata. Esses sete são os que a comissão de kata da Federação Internacional de Judô cobre nos critérios de avaliação em vigor, publicados em janeiro de 2025, e foram os sete disputados no Campeonato Mundial de kata de Paris, em novembro de 2025. O manual de torneio da mesma comissão, cuja última edição é de 2024, ainda relaciona cinco: o koshiki-no-kata e o itsutsu-no-kata entraram depois dele.

Cinco juízes dão nota. Em cada técnica a maior e a menor são descartadas e as três restantes formam a pontuação. Cada técnica é avaliada pelo conjunto: preparação, desequilíbrio e controle, projeção e conclusão, eficiência, realismo e fluidez.

No nage-no-kata o lado direito e o lado esquerdo recebem uma nota só, atribuída aos dois em conjunto. Executar a técnica de um lado apenas conta como técnica esquecida, o que zera aquela nota e ainda divide pela metade a pontuação final da dupla. Fazer duas vezes do mesmo lado, ou inverter um dos lados, entra como erro grande e custa cinco pontos.

Não confundir os nomes

  • 投の形, nage-no-kata. As quinze projeções tratadas neste texto.
  • 乱取の形, randori-no-kata. Nome que reúne o nage-no-kata e o katame-no-kata sob a mesma finalidade. O Kodokan também o usa para o nage-no-kata sozinho.
  • 投技裏の形, nage-waza-ura-no-kata. Um estudo de contragolpes contra projeções, atribuído a Kyūzō Mifune. Não é kata oficial do Kodokan.
  • 後の先の形, gonosen-no-kata. Outro conjunto de contragolpes, também fora da relação oficial.

A relação completa dos kata do Kodokan está em Kata.

Ver o kata

O Kodokan publica no seu canal a demonstração de referência do kata, com narração em inglês. Serve para conferir a ordem das formas, a distância de partida e o ritmo de cada série.

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Fontes: Kodokan Judo Institute, Kodokan KATA Textbook: Nage-no-Kata, tradução oficial da edição japonesa, 2014, com as datas de adoção (10 de abril de 1960) e de alteração (1º de novembro de 2005) na abertura. Kodokan Judo Institute, canal oficial, Nage-no-Kata (English ver.), 2023. International Judo Federation, Kata Commission, Competição de kata: critérios de avaliação, janeiro de 2025, documento que traz capítulo para cada um dos sete kata, e Tournament Handbook, edição de 2024, que ainda relaciona cinco. International Judo Federation, página de resultados do Campeonato Mundial de Kata de Paris, novembro de 2025, para as sete provas efetivamente disputadas. Confederação Brasileira de Judô, Conselho Nacional de Graus, Regulamento nacional para exame e outorga de faixas e graus, 2023. Kodokan Judo Institute, 2025 Summer Kodokan Dan Promotion Examination for Kodokan International Division, para o quadro de kata exigido em cada dan. Federação Paulista de Judô, Regulamento de graduação, 1º ao 5º dan, 2024, anexo de kata. Carl De Crée e Llyr C. Jones, Kōdōkan Jūdō’s Elusive Tenth Kata: The Gō-no-kata, parte 1, Archives of Budo, vol. 5, 2009, para o encontro do Butokukai de 1906 e para a composição original de dez formas. Para a análise dos caracteres, as entradas de 投 e de 殳 no Hàndiǎn (zdic.net), que reproduz o Shuowen Jiezi e o Kangxi Zidian. As datas de criação por volta de 1884 e 1885, as substituições de sukui-nage por kata-guruma e de tsuri-otoshi por sumi-gaeshi, o teor do regimento interno de graduação do Kodokan de 2015 e a comparação de Kano entre randori e kata vêm de fontes secundárias japonesas e de material de federações estaduais japonesas, sem consulta aos originais. Não foram consultados no original a biografia de Kano, a publicação do Butokukai de 1908 nem as obras de Toshirō Daigo e Kyūzō Mifune.