Seiryoku zen’yō kokumin taiiku: o Judô como educação física para todos

O seiryoku zen’yō kokumin taiiku é um método de exercício físico que Jigoro Kano montou a partir do Judô e ofereceu ao país inteiro. Metade dele se pratica sozinho: socos, golpes e chutes executados no ar, em várias direções, sem parceiro. A outra metade é feita em dupla, com um atacando e o outro respondendo.

Nenhum outro kata do Kodokan tem uma metade assim. O nage-no-kata e o katame-no-kata só existem com duas pessoas. Aqui a primeira metade pode ser feita em qualquer lugar, com roupa comum, sem tatame e sem judogi. Kano queria exatamente isso: um exercício que não dependesse de dojô, de equipamento nem de um número mínimo de praticantes.

O Kodokan mantém o exercício na sua relação oficial de kata e publicou uma gravação de referência dele. Fora disso, a presença é pequena. Ele não consta das exigências de exame de faixa preta do Kodokan, não entra na competição de kata da IJF e não aparece no programa das federações ligadas a ela. No curso internacional de kata do Kodokan foi ensinado pela última vez em 2006. Como demonstração, apareceu na cerimônia de Kagami-biraki de 2013 e na de 2019.

O nome

精力, seiryoku, é energia. O dicionário japonês define a palavra como a força com que o espírito e o corpo se põem em atividade, o que abrange disposição e vontade além do vigor muscular.

善用, zen’yō, é usar alguma coisa para um bom fim, ou usá-la bem. A palavra tem um oposto direto em japonês, 悪用 (akuyō), que é usar para o mal. Os dois termos juntos formam 精力善用, o lema que Kano deu ao Judô em 1922, quando fundou o Kodokan Bunkakai. Ele próprio explicou o lema assim: fazer trabalhar da maneira mais eficaz possível a força do espírito e a força do corpo para alcançar o objetivo de que se trate.

国民, kokumin, são as pessoas que compõem um país. A palavra situa o destinatário do exercício: a população, não o frequentador de dojô.

体育, taiiku, é educação física. A palavra é recente em japonês. Passou a ser usada em 1876 para verter o termo ocidental, e antes dela se dizia 身体教育, educação do corpo. Quando Kano montou o exercício, 体育 tinha cerca de cinquenta anos de uso.

O nome inteiro não menciona Judô em nenhum ponto. Kano apresentava o exercício como método nacional de educação física, aberto a quem nunca tivesse pisado num dojô. Em português a soma dá algo próximo de educação física do povo pelo bom uso da energia. O Kodokan cataloga o exercício como 精力善用国民体育, sem 形; em muitos textos ele aparece com o sufixo, como 精力善用国民体育の形.

Como se pratica

O exercício tem duas partes. O tandoku renshū (単独練習) é o treino individual, feito sem parceiro. O sōtai renshū (相対練習) é o treino em dupla, e se divide em dois blocos de dez formas: o kime-shiki (極式), de ritmo decidido, e o jū-shiki (柔式), de ritmo lento e contínuo.

O conteúdo do tandoku renshū é atemi-waza: golpes com a mão, socos e chutes. O Judô tem esse repertório e quase não o exercita, porque ele fica de fora do randori e da competição. Kano dizia com todas as letras que criara o exercício, entre outras razões, para cobrir essa falta do randori e dos kata existentes.

Um dos movimentos individuais, o kagami-migaki, imita o gesto de polir um espelho. A ginástica de imitação que Kano propôs em 1909 já trazia um exercício de polir, e nela os praticantes reproduziam gestos de trabalho como levantar uma pedra pesada ou puxar o balde de um poço. A ideia era que cada movimento tivesse sentido, em vez de ser flexão mecânica de braço e perna.

A parte individual

O primeiro grupo tem três séries de cinco movimentos cada, quinze ao todo. 五方 (gohō) são as cinco direções. No gohō-ate os golpes saem sem que os pés saiam do lugar; no ō-gohō-ate os mesmos cinco golpes vão acompanhados de um passo de entrada.

SérieMovimentos
Gohō-ate (五方当)Hidari-mae-naname-ate, migi-ate, ushiro-ate, mae-ate, ue-ate
Ō-gohō-ate (大五方当)Os mesmos cinco golpes, com passo de entrada
Gohō-geri (五方蹴)Mae-geri, ushiro-geri, hidari-mae-naname-geri, migi-mae-naname-geri, taka-geri
Primeiro grupo do tandoku renshū, conforme a relação publicada pelo Kodokan.

O segundo grupo tem treze movimentos na relação do Kodokan, que termina no ushiro-tsuki. A Wikipédia japonesa chega a quatorze, com o mae-shita-tsuki em item próprio depois dele. O Kano Society Bulletin fica em treze e junta os dois nomes no último item.

NºMovimentoSentido do nome
1Kagami-migakiPolir o espelho
2Sayū-uchiGolpe para a esquerda e para a direita
3Zengo-tsukiSoco à frente e atrás
4Ryōte-ue-tsukiSoco para cima com as duas mãos
5Ō-ryōte-ue-tsukiO mesmo soco, em versão ampla
6Sayū-kōgo-shita-tsukiSocos para baixo, alternando os lados
7Ryōte-shita-tsukiSoco para baixo com as duas mãos
8Naname-ue-uchiGolpe em diagonal para cima
9Naname-shita-uchiGolpe em diagonal para baixo
10Ō-naname-ue-uchiGolpe amplo em diagonal para cima
11Ushiro-sumi-tsukiSoco para o canto de trás
12Ushiro-uchiGolpe para trás
13Ushiro-tsukiSoco para trás
Segundo grupo do tandoku renshū, na relação do Kodokan, igual nas páginas japonesa e inglesa do instituto.

A parte em dupla

São vinte formas, dez em cada bloco. O kime-shiki reúne defesas contra pegadas, socos e armas, cinco ajoelhado (idori) e cinco em pé (tachiai). Seis dos dez nomes aparecem também no kime-no-kata, e é comum descrever o bloco como uma versão reduzida daquele kata. O jū-shiki é formado por dez das quinze formas do jū-no-kata, reagrupadas em duas séries de cinco, e conserva o ritmo lento e a ausência de projeção concluída.

BlocoFormas
Kime-shiki, idori (居取)Ryōte-dori, furi-hanashi, gyakute-dori, tsukkake, kiri-kake
Kime-shiki, tachiai (立合)Tsuki-age, yoko-uchi, ushiro-dori, naname-tsuki, kiri-oroshi
Jū-shiki, primeira série (一教)Tsuki-dashi, kata-oshi, kata-mawashi, kiri-oroshi, katate-dori
Jū-shiki, segunda série (二教)Katate-age, obi-tori, mune-oshi, tsuki-age, ryōgan-tsuki
Relação do sōtai renshū publicada pelo Kodokan. Na maioria dos casos o nome designa o ataque de uke.

De onde veio

Em 1922 Kano fundou o Kodokan Bunkakai, a associação cultural do Kodokan, e apresentou ali os dois lemas que passaram a resumir o Judô: 精力善用 e 自他共栄 (jita kyōei), a prosperidade de si e do outro em conjunto. O raciocínio que liga os dois lemas a este exercício é do próprio Kano. Aplicado ao ataque e à defesa, escreveu ele, o princípio produz os kata e o randori; aplicado a melhorar o corpo, produz educação física.

A datação diverge entre as fontes. O Kodokan situa a criação em 1924, e o Kano Society Bulletin segue esse ano. Enciclopédias japonesas e a literatura em japonês situam a criação em 1927, ano em que Kano deu uma palestra sobre o método no Ministério da Educação, em fevereiro, e começou a divulgá-lo em viagens. Naquela fase o nome usado era 攻防式国民体育, educação física nacional em forma de ataque e defesa.

De 1927 a 1932 Kano viajou o Japão divulgando o método. Falou em Osaka, Nagoia, Beppu, Kumamoto e Hakata, ensinou na Academia Naval e na escola secundária de Nada em 1929, publicou o livro Seiryoku zen’yō kokumin taiiku pelo Kodokan Bunkakai em 1930 e realizou naquele novembro um curso com a presença do ministro da Educação. Em 1932 apresentou o exercício no Havaí.

Kano listou as condições que uma educação física ideal deveria cumprir.

  • Desenvolver músculos e órgãos de maneira equilibrada, com o mínimo de risco.
  • Ter movimentos com significado, de modo que a prática gere perícia e que essa perícia sirva para alguma coisa na vida.
  • Poder ser feita sozinho ou em grupo, por pessoas de qualquer idade e sexo.
  • Dispensar espaço amplo, instalação complicada e roupa própria.
  • Caber tanto em horário marcado quanto em minutos soltos do dia.

O método ficou incompleto. Kano dizia que o 精力善用国民体育 teria duas partes, a de ataque e defesa e uma segunda em forma de dança, 舞踊式国民体育, que ele pretendia terminar e publicar. Essa segunda parte nunca ficou pronta.

A questão do karatê

Kano assistiu à primeira demonstração de karatê no Japão continental em 1908, em Kyoto, e convidou alunos e professores de Shuri ao Kodokan em 1910. Em 1922 recebeu Gichin Funakoshi para uma demonstração. Shinkin Gima, que acompanhava Funakoshi, afirmou depois que as técnicas do karatê de Okinawa estavam empregadas ao longo deste exercício.

A afirmação de Gima é uma leitura possível, sem confirmação em outra fonte da época. Golpes de mão e chutes fazem parte de várias escolas de jūjutsu, entre elas o Tenjin Shin’yō-ryū e o Kitō-ryū, nas quais Kano se formou, e podem ter chegado ao exercício por esse caminho.

Por que quase não se pratica hoje

Kano morreu em 1938 sem ver o método adotado como programa nacional. Depois da Segunda Guerra as forças de ocupação proibiram as artes marciais no Japão. O Judô voltou às escolas pouco depois, apresentado como esporte, e o seiryoku zen’yō kokumin taiiku ficou de fora. Yoshiaki Tōdō atribui esse abandono ao caráter marcial declarado do exercício e aponta nele o motivo do desaparecimento prático do método. Como se deu o afastamento não está documentado.

A competição de kata da Federação Internacional de Judô tem sete provas: nage-no-kata, katame-no-kata, kime-no-kata, jū-no-kata, Kodokan goshin jutsu, koshiki-no-kata e itsutsu-no-kata. Este exercício não está entre elas. Kano o pensou como educação física de alcance nacional, para ser feito por muita gente em qualquer lugar.

A transmissão continuou por caminhos estreitos. Keiko Fukuda, a mulher mais graduada da história do Judô, incluiu o exercício no seu livro de kata para mulheres, de 1973, e o descrevia como meio de desenvolver o corpo de forma equilibrada. No Kodokan, a demonstração de 2013 foi dirigida por Katsuko Umezu, com Mami Haibara no tandoku renshū e Akiko Amano e Haibara no sōtai renshū.

Não confundir os nomes

  • 精力善用, seiryoku zen’yō. O lema do Judô, anunciado em 1922. Vale para toda a prática, não só para este exercício.
  • 精力善用国民体育. O exercício tratado nesta página, criado alguns anos depois e batizado com o lema.
  • 攻防式国民体育, kōbō-shiki kokumin taiiku. Nome usado por Kano na fase de divulgação para a parte de ataque e defesa, que é a que existe hoje.
  • 単独練習, tandoku renshū. Aqui designa a metade individual deste exercício. No Judô em geral, a mesma expressão nomeia qualquer treino feito sozinho, como uchi-komi no ar ou deslocamento no tatame.

Ver o kata

A gravação de referência que o Kodokan publicou em 2020 tem pouco menos de meia hora e mostra a parte individual e a parte em dupla, na ordem em que o método as apresenta. A página japonesa do instituto sobre o exercício remete a ela.

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Fontes: Kodokan Jūdō Institute, páginas 精力善用国民体育 e Kata, e a gravação de referência publicada no canal oficial em 2020. Martin Savage, Llyr C. Jones e Lance Gatling, Seiryoku Zenyo Kokumin Taiiku, Kano Society Bulletin nº 57, julho de 2023. Jigoro Kano, Seiryoku no saizen katsuyō, revista Taisei, 1922, Nani yue ni seiryoku saizen katsuyō, jita kyōei no shuchō o hitsuyō to suru ka, revista Sakkō, 1925, e Jūjutsu to jūdō no kubetsu o meikaku ni ninshiki seyo, revista Jūdō, 1936, de onde vem a passagem sobre aplicar o princípio ao ataque e à defesa e ao corpo, os três citados a partir do site do Kodokan. Sakai Shigeyoshi, Kanō Jigorō no jūdō to kyōiku, judo3.0, 2010, que cita Yoshiaki Tōdō, Jūdō no rekishi to bunka, e os Kanō Jigorō chosakushū. Wikipédia japonesa, verbetes 柔道形, 講道館, 嘉納治五郎 e 体育. Kotobank e Weblio para as definições de dicionário de 精力, 善用 e 国民. A datação de 1876 para a palavra 体育 vem da Wikipédia japonesa, que a atribui a 近藤鎮三; não conferi essa atribuição em fonte primária, e por isso o nome não aparece no texto. Não consultei o livro de 1930 de Kano, nem Illustrated Kodokan Judo, nem Born for the Mat, de Keiko Fukuda, citados aqui a partir do levantamento do Kano Society Bulletin. A data de criação diverge: o Kodokan indica 1924, enquanto o 世界大百科事典, o texto de Sakai e a Wikipédia japonesa indicam 1927 e usam para esse ano o verbo de criar, não o de apresentar. A página em inglês do Kodokan resume o exercício como oito movimentos individuais e nove em dupla, número que não bate com a relação de técnicas publicada na mesma página nem com a versão japonesa do site.