Jū-no-kata: a forma da flexibilidade

O jū-no-kata é um exercício em dupla com quinze formas, divididas em três séries de cinco. Uke ataca, tori tira o corpo da linha do ataque, acompanha a força recebida e controla uke até que ele fique sem base. Nenhuma das quinze formas termina com uke no chão.

É um dos kata oficiais do Kodokan e uma das sete provas da competição de kata da Federação Internacional de Judô. Aparece em exame de graduação no Japão e no Brasil, em graus diferentes nos dois casos. Em janeiro, na cerimônia de kagami-biraki, é um dos sete kata demonstrados no Kodokan.

O ritmo é pausado e as formas são longas. Lento não quer dizer frouxo: o Kodokan descreve o exercício como vigoroso na mesma frase em que fala de movimentos lentos. O movimento é lento para que o praticante tenha tempo de perceber o que está acontecendo, e a tensão continua presente do começo ao fim de cada forma.

O nome

柔, jū, é o mesmo caractere de 柔道 e de 柔術. Significa flexível, maleável, o que cede sem quebrar. O Shuowen Jiezi o define como 木曲直也, madeira que verga e endireita. A construção do caractere e o par 剛/柔 estão tratados na página do Gō-no-kata.

A leitura de 柔 no nome do kata é じゅう, com vogal longa, daí a grafia jū-no-kata. 形, kata, é forma, e o Judô escreve esse caractere, não 型.

O Kodokan explica o kata pela máxima 柔能く剛を制する, jū yoku gō wo sei suru, a ideia de que o flexível controla o duro. O exercício existe para que o praticante entenda esse raciocínio com o corpo.

Como se pratica

A distância de partida é a mesma do nage-no-kata, cerca de cinco metros e meio. Tori e uke cumprimentam o shōmen, depois um ao outro, e se aproximam em duas etapas até cerca de um metro e oitenta, ambos em shizen-hontai. As quinze formas se encadeiam: cada uma começa da posição em que a anterior terminou.

Em cada forma uke abre com um golpe, uma pegada ou um empurrão. Tori tira o corpo, controla o punho ou o cotovelo de uke e usa a direção do próprio ataque para tirar a base. A iniciativa não fica parada em uke. Em várias formas tori passa a atacar depois da primeira resposta, uke devolve, e a troca segue por dois ou três turnos antes do fim.

O fim de cada forma se repete: uke perde a base por completo e sinaliza mairi. O Kodokan define o sinal como um único toque de mão ou um pé recuado, e em naname-uchi uke bate as duas mãos.

Uke sai do chão em seis das quinze formas. Em ryote-dori tori o levanta sobre o quadril, em kata-mawashi na forma de ippon-seoi-nage e em naname-uchi na forma de ura-nage. Em katate-dori, obi-tori e ryogan-tsuki tori usa um uki-goshi que o texto do Kodokan manda executar com o formato de ō-goshi, para que uke levante bem as duas pernas. Suspenso, uke sinaliza mairi, e tori o desce. A projeção fica montada e não é concluída.

O Kodokan lista cinco características do kata:

  • Pode ser praticado a qualquer hora, em qualquer lugar e com qualquer roupa.
  • Permite que qualquer pessoa, de qualquer idade e de qualquer sexo, aprenda a lógica do Judô.
  • Como ataque e defesa são feitos em movimento pausado, o raciocínio de cada forma fica visível e fácil de acompanhar.
  • Trabalha muito a musculatura extensora e a extensão do tronco para trás, o que, combinado com o randori, ajuda no desenvolvimento equilibrado do corpo.
  • O tai-sabaki natural e a passagem sem solavancos de um movimento para o outro educam o senso estético.

As quinze formas

Os nomes das formas descrevem o ataque de uke. Nisso o jū-no-kata difere do nage-no-kata, em que o nome de cada forma é a projeção executada por tori.

NºFormaO que uke faz
Dai-ikkyo, primeira série
1Tsuki-dashi (突出)Avança e projeta a ponta dos dedos contra o ponto entre as sobrancelhas de tori
2Kata-oshi (肩押)Empurra o ombro direito de tori por trás, para a frente e para baixo
3Ryote-dori (両手取)Agarra os dois punhos de tori
4Kata-mawashi (肩廻)Empurra um ombro e puxa o outro para girar tori
5Ago-oshi (腮押)Empurra o queixo de tori pelo lado
Dai-nikyo, segunda série
6Kiri-oroshi (切下)Desce a mão em corte sobre o alto da cabeça de tori
7Ryokata-oshi (両肩押)Pressiona os dois ombros de tori para baixo
8Naname-uchi (斜打)Golpeia em diagonal com a mão aberta, mirando o ponto entre as sobrancelhas
9Katate-dori (片手取)Agarra o punho direito de tori com a mão esquerda
10Katate-age (片手挙)Avança com o braço direito estendido acima da cabeça, e tori faz o mesmo
Dai-sankyo, terceira série
11Obi-tori (帯取)Cruza as mãos e tenta pegar o cinto de tori
12Mune-oshi (胸押)Empurra o peito de tori com a base da palma
13Tsuki-age (突上)Fecha o punho e sobe um golpe ao queixo de tori
14Uchi-oroshi (打下)Desce o punho sobre o alto da cabeça de tori
15Ryogan-tsuki (両眼突)Estende os dedos, separa o médio do anular e avança na direção dos dois olhos de tori
Ordem e descrições conforme a apostila oficial do Kodokan, revisada em 1977 e emendada em 2007, na tradução para o inglês publicada pela instituição em 2014.

Por que nada termina em projeção

Kano tratou disso ao recomendar por onde começar o estudo dos kata. Em 1921 escreveu que o adequado é começar pelo jū-no-kata, porque o exercício facilita entender o raciocínio de vencer acompanhando a força do outro, e porque o praticante não é projetado, o que, somado ao movimento calmo, torna o kata fácil de aprender para quem está começando.

Sem ukemi, o kata dispensa tatame e queda amortecida, e continua acessível a quem já não cai com segurança. Sobra o desequilíbrio para estudar: onde a base de uke acaba, para que lado ela já estava indo e quanto tori precisa fazer para levá-la até ali.

A lentidão cumpre a mesma função. Numa projeção em velocidade normal, o instante em que a base de uke cede dura uma fração de segundo. Aqui esse instante é esticado, e tori tem que sustentar o controle enquanto ele dura, sem empurrar e sem apressar.

De 1887 até a forma atual

O jū-no-kata foi criado por volta de 1887, no Kodokan, no mesmo período em que Kano organizava os outros kata do período inicial. Começou com cerca de dez formas e chegou às quinze atuais por volta de 1907.

A reunião do Butokukai realizada em Kyoto em 1906 padronizou o nage-no-kata, o katame-no-kata e o kime-no-kata. De Crée e Jones observam que o jū-no-kata ficou fora daquele processo, e que o trabalho sobre ele seguiu dentro do Kodokan.

O texto que vale hoje é o do Kodokan, revisado em 7 de julho de 1977 e emendado em 1º de junho de 2007. A apostila oficial em inglês, de 2014, traz as fotografias de Takashi Ogata e Motonari Sameshima, ambos sétimo dan na época.

Fora do Japão, uma das apresentações que mais circularam em inglês foi a de Sumiyuki Kotani, Yoshimi Osawa e Yuichi Hirose, publicada em Kobe em 1968, que descreve o jū-no-kata junto com os outros kata do Kodokan.

O kata e a prática feminina

O Kodokan abriu sua seção feminina, a joshi-bu, em novembro de 1926. Durante décadas o programa das mulheres foi definido como educação física e moral: praticavam kata e randori, e a competição era proibida. O kata teve, por isso, peso muito maior na formação feminina do que na masculina, e o jū-no-kata ficou associado a essa prática.

A associação se reforçou pelo trabalho de Keiko Fukuda, aluna direta de Kano e autora de um livro dedicado só a este kata, revisto e ampliado em 2004 sob o título Ju-no-kata: A Kodokan Judo Textbook.

Até o início dos anos 1970 as mulheres não passavam do quinto dan no Kodokan. Em 1972, depois de uma campanha de cartas partida de São Francisco, Keiko Fukuda e Masako Noritomi foram as primeiras mulheres promovidas ao sexto dan. O primeiro Campeonato Mundial feminino aconteceu em 1980, em Nova York, e o Judô feminino passou a valer medalha olímpica em 1992, depois de aparecer como esporte de demonstração em 1988.

Hoje as normas internas de graduação do Kodokan pedem o jū-no-kata no mesmo grau para homens e para mulheres. Na competição internacional a dupla pode ser de dois homens, de duas mulheres ou mista, em qualquer dos kata. A apostila oficial do Kodokan mostra o jū-no-kata executado por dois homens.

Em competição e em exame

A Federação Internacional de Judô montou sua comissão de kata em janeiro de 2008, em Paris, e definiu cinco kata para competição internacional: nage-no-kata, katame-no-kata, kime-no-kata, jū-no-kata e Kodokan goshin jutsu. Em 2025 entraram o koshiki-no-kata e o itsutsu-no-kata, e o programa passou a sete provas. O campeonato nacional japonês também disputa sete.

Nas normas internas do Kodokan, o jū-no-kata é o kata cobrado no exame de quarto dan, tanto no regulamento masculino quanto no feminino.

No Brasil ele aparece mais cedo. O Regulamento Nacional para Exame e Outorga de Faixas e Graus da Confederação Brasileira de Judô, de 2023, exige o jū-no-kata completo, como tori, no exame de terceiro dan, junto com uma descrição escrita do kata. No quarto dan ele volta como um grupo sorteado. Do sexto dan em diante, apresentar o jū-no-kata em evento oficial, como tori ou como uke, entra na relação de atividades exigidas.

Quem se prepara para esses exames precisa contar com tempo de estudo. São quinze formas encadeadas, com deslocamentos definidos entre uma e outra, e o critério de avaliação usado em competição pontua também a saudação de abertura, a de encerramento e a continuidade do conjunto.

Ver o kata

A gravação abaixo saiu da cerimônia de kagami-biraki de 2026. É onde se vê o ritmo do kata, que a descrição escrita não transmite.

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Fontes: Kodokan Judo Institute, Kodokan KATA Textbook: Ju-no-Kata, tradução oficial para o inglês, 2014, que traz as datas de revisão de 1977 e de emenda de 2007, a relação das quinze formas, a descrição de cada uma e as cinco características do kata. Kodokan Judo Institute, página Kata do site institucional. Verbete 柔道形 da Wikipédia japonesa, usado para a cronologia de 1887 e 1907, para as normas internas de graduação do Kodokan de 2015 e 2016, para a formação da comissão de kata da Federação Internacional de Judô em janeiro de 2008 e para a citação de Kano de 1921, que ele atribui ao artigo 一般の修行者に形の練習を勧める, publicado em Yūkō no Katsudō, nº 11, 1921; o original de Kano não foi consultado. Confederação Brasileira de Judô, Conselho Nacional de Graus, Regulamento Nacional para Exame e Outorga de Faixas e Graus, edição de 2023, que é a vigente; as exigências reproduzidas aqui foram conferidas na edição de 2021, e o arquivo de 2023 publicado pela CBJ é digitalização sem camada de texto. Federação Internacional de Judô, Comissão de Kata, Kata Competition: Criteria for the Evaluation, janeiro de 2025, que traz capítulo para cada um dos sete kata de competição, entre eles o koshiki-no-kata e o itsutsu-no-kata e detalha o que é avaliado em cada forma do jū-no-kata. Federação Internacional de Judô, matérias sobre competição de kata publicadas em ijf.org, entre elas a de outubro de 2023 sobre a composição das duplas. Federação Internacional de Judô, página de história do Judô feminino, para a seção feminina do Kodokan e o Mundial de 1980, e programa olímpico de 1988 e 1992. Carl De Crée e Llyr C. Jones, Kōdōkan Jūdō’s Elusive Tenth Kata: The Gō-no-kata, Archives of Budo, vol. 5, 2009, para a observação sobre a reunião do Butokukai de 1906. Keiko Fukuda, Ju-no-kata: A Kodokan Judo Textbook, North Atlantic Books, 2004, revisão ampliada de Born for the Mat, e Sumiyuki Kotani, Yoshimi Osawa e Yuichi Hirose, Kata of Kodokan Judo, Revised, Koyano Bussan Kaisha, Kobe, 1968, nenhuma das duas consultada no original. Para a análise do caractere 柔, Shuowen Jiezi. Duas lacunas: a data de 1887 é a que o Kodokan e a literatura repetem, sem que as fontes consultadas apontem documento de época; e quem conduziu a revisão de 1977 no Kodokan não aparece nelas, nem há atribuição a Sumiyuki Kotani de participação na fixação deste kata.