Katame-waza ura-no-kata: a forma do avesso das técnicas de controle

O katame-waza ura-no-kata é um exercício em dupla feito no chão. Uke aplica, uma a uma, as quinze técnicas de controle do katame-no-kata. Tori escapa de cada uma e, na sequência, estabelece um controle próprio sobre uke.

O Kodokan não reconhece o kata: ele fica fora da lista oficial, não entra em competição e é praticado por muito pouca gente. A documentação acessível é escassa: um livro japonês de 1970, um artigo acadêmico de 2015 e um manual recente em inglês e espanhol. Nada disso circula em português.

Ele é a contraparte no solo do nage-waza ura-no-kata. A relação entre os dois repete a relação entre o nage-no-kata e o katame-no-kata: um cuida das projeções, o outro do que acontece depois que a luta chega ao chão.

O kata foi montado por Kazuo Itō, a partir de técnicas aprendidas com seu mestre Kyūzō Mifune. É a conclusão do único estudo acadêmico conhecido sobre o assunto, de Carl De Crée, e é o que dizem também a Wikipédia japonesa e o manual de 2021. A atribuição do kata ao próprio Mifune circula em texto europeu e em lista de kata na internet, sem documento que a sustente. O kata não aparece em nenhum escrito conhecido de Mifune.

O nome

裏, ura, é o avesso. O caractere junta 衣, roupa, com 里, que entra pelo som. O Shuowen Jiezi define 裏 como 衣內也, o interior da roupa, o forro. Daí o sentido corrente: o lado de dentro, a face que não fica à mostra. No vocabulário do Judô, ura-waza é a técnica que responde à técnica do outro. O avesso de um controle no chão é escapar dele e devolver o controle.

固技, katame-waza, nomeia o grupo das técnicas de controle: imobilizações, estrangulamentos e chaves de articulação. O termo aparece com frequência como sinônimo de newaza, o trabalho de solo. Os dois não coincidem: estrangulamento e chave de articulação também se aplicam de pé. O caractere 固 junta 囗, o cercado, com 古, que entra pelo som. O Shuowen define 固 como 四塞也, fechado pelos quatro lados. 技, waza, junta 扌, mão, com 支, fonético, e designa a habilidade da mão, a técnica.

形, kata, é a forma. O nome completo, portanto, nomeia as formas do avesso das técnicas de controle.

A grafia varia. No fim do livro, ao listar as técnicas, Itō escreve 固め技裏の形. Aparece também 固技裏の形, sem o め, e 固め技裏之形, com 之 no lugar de の, à moda antiga. Em alfabeto latino circulam katame-waza ura-no-kata e katame waza ura no kata. É o mesmo exercício.

Como funciona

A estrutura é copiada do katame-no-kata. Três séries de cinco formas, com as mesmas técnicas e na mesma ordem. Em cada forma uke aplica o controle e tori responde em dois tempos: primeiro a saída, nige-waza, depois o contra-ataque, kaeshi-waza, que termina com tori controlando uke. No katame-no-kata uke tenta escapar três vezes nas imobilizações e uma vez só nos estrangulamentos e nas chaves; aqui a saída é sempre única.

Para a saudação e a abertura não há descrição. O livro de Itō traz duas fotografias da posição inicial e mais nada. De Crée propõe usar o protocolo do katame-no-kata e deixa claro que a proposta é dele, não do autor do kata.

De Crée classifica o exercício como randori-no-kata, ou seja, forma cujo conteúdo volta direto para o randori. O objetivo declarado é o myōwaza, o mesmo alvo do nage-waza ura-no-kata. Diferenças de detalhe entre uma execução e outra são esperadas, e nunca houve banca para pontuar o exercício.

Para quem treina, o valor prático é direto. A maior parte das técnicas atacadas é a que o judoca encontra no randori de solo, e as quinze são as do katame-no-kata, cobrado por inteiro no exame de 2º dan da CBJ. O kata organiza as saídas e as retomadas numa sequência fixa, em vez de deixá-las por conta do acaso do treino.

As quinze formas

As técnicas que uke aplica são as quinze do katame-no-kata, na ordem do katame-no-kata. As respostas de tori se distribuem em seis imobilizações, um estrangulamento e oito chaves de articulação.

GrupoNºAtaque de ukeResposta de tori
Osaekomi-waza1Kesa-gatameUde-dori-kuzure-gesa
Osaekomi-waza2Kata-gatameKaeshi-hon-gesa
Osaekomi-waza3Kami-shiho-gatameGyakute-hadaka-jime
Osaekomi-waza4Yoko-shiho-gatameUde-kujiki-kata-gatame
Osaekomi-waza5Kuzure-kami-shiho-gatameUde-kujiki-juji-gatame
Shime-waza6Kata-juji-jimeUde-garami
Shime-waza7Hadaka-jimeGyakute-seoi-otoshi e juji-gatame, à esquerda
Shime-waza8Okuri-eri-jimeUde-kujiki-teko-gatame
Shime-waza9Kata-ha-jimeUde-dori-ushiro-kesa
Shime-waza10Gyaku-juji-jimeUde-garami
Kansetsu-waza11Ude-garamiUde-garami
Kansetsu-waza12Ude-hishigi-juji-gatameKaeri-oki-osaekomi, em kesa-gatame, à esquerda
Kansetsu-waza13Ude-hishigi-ude-gatameOshi-daoshi-kesa-gatame
Kansetsu-waza14Ude-hishigi-hiza-gatameUde-kujiki-ude-gatame
Kansetsu-waza15Ashi-garamiTate-shiho-gatame
Relação publicada por Carl De Crée a partir do livro de Kazuo Itō, de 1970, o único livro sobre o kata até 2015, que não foi consultado no original. Os ataques são as quinze técnicas do katame-no-kata, na mesma ordem. Itō lê o caractere 挫 como kujiki onde o Kodokan lê hishigi. De Crée diz que em pelo menos dois pontos o livro demonstra uma resposta diferente da que a lista do autor anuncia, e documenta um deles: na forma 5 o que aparece demonstrado é ude-kujiki-kote-gatame. Anota ainda que a resposta da forma 4 hoje seria chamada de ude-hishigi-ude-gatame pelo Kodokan.

De onde veio

Kyūzō Mifune (1883–1965) chegou ao 10º dan e é lembrado sobretudo pelo sumi-otoshi. Ele também pesquisou formas de contra-ataque, que na época se chamavam ura-waza. A revista Kindai Jūdō, em 1983, conta que Mifune tinha o conjunto praticamente pronto por volta de 1936, cobrindo projeções e trabalho de solo, e que pediu a Kano que o adotasse como forma oficial. Segundo a mesma revista, Kano avaliou bem a proposta e morreu antes de decidir, em 1938, na viagem de volta da reunião do Comitê Olímpico Internacional. De Crée procurou algo escrito por Kano ou por Mifune sobre esse encontro e não achou. Circula também a versão contrária, de que Kano não gostou do que viu. De Crée trata as duas como boato.

Kazuo Itō (1898–1974) entrou para o Kodokan em 1920 e passou a treinar com Mifune em 1922, morando como aluno interno na casa do mestre. Chegou ao 9º dan em 1958. Foi professor de Judô na Polícia Metropolitana de Tóquio e em várias universidades japonesas, e ensinou na América do Norte e na Europa. Segundo a mesma reportagem de 1983, ninguém executava as formas de contra-ataque melhor que ele.

Em 1970 Itō publicou Jūdō no nage to katame no ura-waza, pela editora Seibunkan Shoten, reunindo o material de projeções e de solo. De Crée credita a autoria a Itō e data o kata pelo próprio livro: 20 de junho de 1970, dia da impressão, a data mais antiga em que o kata pronto aparece documentado. Itō em nenhum lugar diz quando o compôs. A atribuição se apoia em entrevista de Shizuya Satō, aluno de Itō e uke das fotografias do livro, publicada em 2000 na revista Hiden, e no fato de o kata não constar de nenhuma obra de Mifune. A Wikipédia japonesa, no verbete sobre os kata do Judô, apresenta o nage-waza ura-no-kata como pesquisa conjunta de Mifune e Itō e o katame-waza ura-no-kata como criação de Itō, o que coincide com De Crée neste segundo caso.

De Crée também rastreia de onde vêm as saídas e os contra-ataques. Aponta ideias de Kazuyoshi Takahashi e, principalmente, o trabalho de solo desenvolvido por Jōin Oda e pelo próprio Mifune, com contribuição menor e menos certa de Sanbō Toku e Chū Kawakami. Nenhum desses nomes aparece como autor do kata.

Por que ficou fora do Kodokan

As formas de contra-ataque de Mifune nunca foram incorporadas ao ensino do Kodokan. Depois da morte dele, a transmissão passou ao Kokusai Budōin, entidade que Itō dirigia como primeiro diretor. Com a morte de Itō, em 1974, coube a Takasue Itō (1897–1981), 8º dan, também discípulo de Mifune, dar continuidade.

A reportagem de 1983 da Kindai Jūdō conta que em 1980 o Kodokan mandou que quem tivesse graduação ou título do Kokusai Budōin os devolvesse, sob pena de perder cargos no Kodokan e na Federação Japonesa de Judô, e que a maioria obedeceu. O Kokusai Budōin não chegou a se firmar como grupo influente no Judô japonês, e o kata ficou restrito a poucas pessoas.

De Crée aponta duas causas para o desconhecimento atual: falta de instrutor qualificado e a condição de kata não reconhecido. Acrescenta uma terceira: o kata não entra em exame de dan, e boa parte de quem estuda kata estuda o que vai ser avaliado.

Onde se pratica hoje

O Kokusai Budōin continua ativo. De Crée examinou os programas dos estágios internacionais da entidade na década anterior a 2015 e não encontrou o kata em nenhum deles. Shizuya Satō, que o aprendera com Itō, teria mantido o kata no que ensinava, e morreu em 2011 sem que essa transmissão alcançasse muita gente.

Em 7 de maio de 2015 o Dōyūkai pôs o kata no seu plano anual de treino pela primeira vez. A sessão aconteceu no Kodokan, com cerca de trinta professores japoneses, conduzida por Toshiyasu Ochiai, o mesmo nome ligado à preservação do gō-no-kata.

De Crée escreveu em 2015 que não conseguiu identificar, em lugar nenhum, outro professor com o kata no repertório de ensino, fora um instrutor em Tóquio que o daria a pedido. Ele próprio o ensina na Bélgica. Preparou em 2016 um material bilíngue em francês e neerlandês reunindo o gō-no-kata e o katame-waza ura-no-kata. Em 2021 saiu um manual em inglês e espanhol assinado por Jose Caracena e Bruce R. Bethers, que também dá o kata como obra de Itō, embora o date dos anos 1960.

Em 2015 De Crée não encontrou nenhuma gravação pública do kata. Os vídeos que circulam hoje são posteriores, de procedência incerta ou reconstruções feitas por praticantes a partir de leitura. Esta página não indica nenhum deles como referência, porque não foi possível confirmar a fidelidade de nenhum ao kata de Itō.

Não confundir os nomes

Existem três kata de contra-ataque que ficaram fora do currículo oficial do Kodokan, e De Crée os estudou em série. Os nomes se parecem.

  • 固技裏の形, katame-waza ura-no-kata. Contra-ataques no chão, seguindo o katame-no-kata. É o kata tratado aqui.
  • 投業裏の形, nage-waza ura-no-kata. Contra-ataques a projeções, atribuídos a Mifune, que escrevia waza com o caractere antigo 業. A página dele explica por que a autoria ali é dele e aqui é de Itō.
  • 後の先の形, gonosen-no-kata. Também trata de contra-ataques a projeções, com origem e história próprias, sem ligação de autoria com Mifune nem com Itō.

O katame-no-kata é kata oficial do Kodokan e apresenta as quinze técnicas de controle. O katame-waza ura-no-kata parte dessas mesmas quinze e trabalha o que vem depois. Os nomes são próximos e as duas coisas costumam ser confundidas em lista de kata na internet.

Fontes: Carl De Crée, Kōdōkan Jūdō’s Three Orphaned Forms of Counter Techniques. Part 3: The Katame-waza ura-no-kata, Archives of Budo, vol. 11, pp. 155–174, 2015, consultado no texto integral, e a Parte 2 da mesma série, sobre o nage-waza ura-no-kata, no mesmo volume. A relação das quinze formas segue a tabela desse artigo, montada sobre Kazuo Itō, Jūdō no nage to katame no ura-waza, Seibunkan Shoten, 1970, que não foi consultado no original. A entrevista de Shizuya Satō saiu na revista Hiden em 2000 e é citada a partir de De Crée. Verbetes 伊藤四男, 居藤高季 e 柔道形 da Wikipédia japonesa, que citam a revista Kindai Jūdō de março de 1983, o boletim Jūdō do Kodokan de maio de 1974 e o registro em vídeo Jūdō no shinzui: Shingi Mifune Jūdan. Verbete Katame-waza ura-no-kata da Wikipédia em inglês. Jose Caracena e Bruce R. Bethers, Katame waza ura no kata, 2021, conhecido pela descrição editorial. Confederação Brasileira de Judô, Conselho Nacional de Graus, Regulamento Nacional para Exame e Outorga de Faixas e Graus, edição de 2023, para a exigência do katame-no-kata em exame, e os critérios de avaliação de kata da Federação Internacional de Judô, na tradução da CBJ, para o número de tentativas de escapar em cada grupo do katame-no-kata. Para a análise dos caracteres, Shuowen Jiezi e o verbete de origem gráfica do Wikcionário. A data de 20 de junho de 1970 é a data de impressão do livro de Itō, a mais antiga em que o kata pronto aparece documentado; quando Itō o compôs não se sabe. As datas de Takasue Itō divergem: 1897 na Wikipédia japonesa, 1887 em De Crée.