O koshiki-no-kata é um exercício em dupla com vinte e uma formas. Tori e uke trabalham em base larga e centro de gravidade baixo, e quase toda forma termina com tori derrubando uke para trás, ou caindo junto num sacrifício, ou apoiando um joelho no chão. Kano não compôs este kata. Ele veio inteiro de uma escola de jūjutsu anterior ao Judô.
Essa escola é o Kitō-ryū, no ramo Takenaka, que Kano estudou a partir de 1881. Ele manteve o conjunto no currículo do Kodokan com poucas alterações, como registro da origem do Judô e como estudo dos princípios que governam o desequilíbrio e a queda. O kata está entre os que o Kodokan adota oficialmente. A relação completa aparece na página de kata.
Hoje o koshiki-no-kata é demonstrado na cerimônia de Kagami-biraki do Kodokan e no Campeonato Japonês de Judô, e tem categoria própria no campeonato japonês de kata. Em novembro de 2025, no Mundial de kata da Federação Internacional de Judô em Paris, entrou pela primeira vez em competição internacional, junto com o itsutsu-no-kata. Com os dois, o programa da federação passou de cinco para sete provas. No Brasil, o Regulamento Nacional para Exame e Outorga de Faixas e Graus da CBJ, de 2023, pede conhecimento teórico do koshiki-no-kata para o exame de 7º dan.
O nome
古, ko, significa antigo, do passado, de outrora. A construção do caractere é disputada. O Shuowen Jiezi o analisa como 十 sobre 口, a fala transmitida por muitas gerações, mas a paleografia moderna trabalha com outras leituras: Qiu Xigui vê no componente superior um escudo e trata 古 como forma original de 固, firme; outra proposta vê ali alimento e liga o caractere a 苦. Sem consenso, fica o sentido corrente.
式, shiki, significa modelo, norma, maneira estabelecida de fazer alguma coisa. O caractere junta 工 como componente de sentido e 弋 como fonético. O Shuowen define 式 com 法, regra. O mesmo caractere está em 形式 (keishiki), a forma exterior, e em 儀式 (gishiki), a cerimônia. 古式, portanto, é o modo antigo de fazer alguma coisa.
形, kata, é forma. A composição do caractere está na página do gō-no-kata. 古式の形 é, portanto, a forma feita à maneira antiga.
O nome não é original. Nos primeiros tempos do Kodokan o exercício era chamado de 起倒流の形 (kitō-ryū-no-kata) ou 起倒流表裏の形 (kitō-ryū omote-ura-no-kata), ou seja, pelo nome da escola de onde veio. 起倒 se lê kitō e junta 起, erguer-se, com 倒, cair.
A escola de onde veio
O Kitō-ryū é uma escola de jūjutsu do início do período Edo, atribuída a Shichirōemon Fukuno e a Matazaemon Ibaraki. Dividiu-se em ramos. O Judô vem do ramo Takenaka, começado por Motonoshin Takenaka, cuja linhagem anterior não é conhecida. De Motonoshin Takenaka o ensino passou a Tetsunosuke Takenaka e deste a Tsunetoshi Iikubo, que recebeu a licença em 1856.
Kano vinha do Tenjin Shin’yō-ryū. Quando seu professor Masatomo Iso morreu, em 1881, ele procurou outro mestre e foi apresentado a Iikubo por um colega da universidade, filho de um antigo instrutor de Kitō-ryū do Kōbusho. Iikubo já era veterano e ainda fazia randori. Kano notou que a maneira de aplicar as técnicas diferia do que aprendera antes, e passou a estudar aquilo com atenção.
O Kodokan foi fundado em maio de 1882, e Iikubo continuou indo lá ensinar as formas do Kitō-ryū e fazer randori com os alunos. Tsunejirō Tomita e Shirō Saigō receberam instrução direta dele. Em outubro de 1883 Kano recebeu a licença plena e todos os documentos de transmissão que Iikubo guardava. As aulas seguiram até por volta de 1885 ou 1886. Iikubo morreu em abril de 1888, aos 55 anos.
No Kitō-ryū o conjunto não tinha o nome que tem hoje. Eram dois grupos, o 表之形 (omote-no-kata), com catorze formas, e o 裏之形 (ura-no-kata), com sete. Essa divisão em catorze e sete continua no Judô.
As vinte e uma formas
Quase nenhum dos nomes coincide com nome de técnica do Judô; 谷落, tani-otoshi, é a exceção. Os demais descrevem imagens: água corrente, neve sobre galho, roda, e duas vezes uma peça da armadura. A primeira forma do omote, 体, começa com uke atacando de quadril e termina com tori quebrando o equilíbrio de uke para trás e derrubando-o sobre o próprio joelho.
| Nº | Forma (omote) | Sentido dos caracteres |
|---|---|---|
| 1 | 体, tai | Corpo |
| 2 | 夢中, yume-no-uchi | Dentro do sonho |
| 3 | 力避, ryokuhi | Desviar da força |
| 4 | 水車, mizu-guruma | Roda d’água |
| 5 | 水流, mizu-nagare | Correnteza |
| 6 | 曳落, hiki-otoshi | Puxar e derrubar |
| 7 | 虚倒, ko-daore | Queda no vazio |
| 8 | 打砕, uchi-kudaki | Golpear e despedaçar |
| 9 | 谷落, tani-otoshi | Queda no vale |
| 10 | 車倒, kuruma-daore | Tombo da roda |
| 11 | 錣取, shikoro-dori | Tomada do shikoro, a proteção de nuca do capacete |
| 12 | 錣返, shikoro-gaeshi | Reversão pelo shikoro |
| 13 | 夕立, yūdachi | Aguaceiro de fim de tarde |
| 14 | 滝落, taki-otoshi | Queda da cachoeira |
| Nº | Forma (ura) | Sentido dos caracteres |
|---|---|---|
| 1 | 身砕, mi-kudaki | Despedaçar o corpo |
| 2 | 車返, kuruma-gaeshi | Reversão da roda |
| 3 | 水入, mizu-iri | Entrar na água |
| 4 | 柳雪, ryūsetsu | Neve sobre o salgueiro |
| 5 | 坂落, saka-otoshi | Despencar ladeira abaixo |
| 6 | 雪折, yuki-ore | Galho rompido pela neve |
| 7 | 岩波, iwa-nami | Onda contra a rocha |
Como se pratica
As duas partes se executam de maneira diferente. O omote é pausado e solene, com as ações marcadas em etapas. O ura é rápido e contínuo, sem as pausas.
A base é larga e o corpo fica baixo. Quase todas as formas terminam com tori entrando num sacrifício e caindo junto com uke, ou apoiando um joelho no chão e levando uke para trás. Projeção de pé, completada com tori em equilíbrio, quase não aparece.
As pegadas também diferem do kumikata habitual no Judô moderno. A distância de trabalho é curta e o contato é frontal, com os corpos próximos. O exercício treina a percepção do momento em que o peso do parceiro já está comprometido, e a entrada que aproveita esse instante.
No Kitō-ryū, a partir de certo estágio, o treino dessas formas admitia que o parceiro reagisse quando a técnica vinha frouxa. Esse regime intermediário entre kata e randori se chamava 形の残り合い (kata-no-nokoriai). No Judô ele não foi adotado, e o kata se pratica com a sequência combinada.
A questão da armadura
Quase todo texto sobre este kata diz que os movimentos supõem dois combatentes vestindo armadura. O Kodokan afirma isso: as formas foram feitas para o kumiuchi, o corpo a corpo de guerreiros armados, e o material japonês descreve o kata como 鎧組討を想定, ou seja, supondo a luta com armadura.
A afirmação tem apoio interno. Duas das vinte e uma formas, 錣取 e 錣返, se chamam assim por causa do shikoro, as lâminas que descem do capacete para proteger a nuca. Sem capacete não há o que pegar ali. Em 水流, uke prende a gola de tori tratando-a como a placa peitoral da armadura, com a mão direita fechada como se segurasse um punhal. A base larga, o corpo baixo e o hábito de terminar com um joelho no chão em vez de uma projeção de pé também são compatíveis com o peso e a rigidez do equipamento.
Se as vinte e uma formas chegaram a ser praticadas de armadura, as fontes consultadas não dizem. O índice de transmissões do Kitō-ryū lista 鎧組, a luta com a armadura vestida, como item separado das vinte e uma formas, e o Jūdō hiroku de Tadamichi Mizuno descreve cinco formas de combate feitas com a armadura de fato posta. Carl De Crée aponta em sentido contrário: no Kitō-ryū ele chama o próprio conjunto de yoroi kumi-uchi-no-kata, formas de luta com armadura, e lembra que o nome antigo da escola era 起倒流兵法鎧組討. Para quem pratica hoje, a armadura entra como situação imaginada.
O que Kano manteve e o que mudou depois
O Kodokan descreve a passagem do Kitō-ryū para o Judô como uma conservação com poucas alterações. Kano avaliava que aquelas formas expunham o essencial do ataque e da defesa, e as manteve para que os praticantes entendessem os princípios finos que decidem quem cai. O nome antigo do exercício no Kodokan, 起倒流の形, indica que ele o apresentava como a forma da escola, e não como criação própria.
Em 20 de maio de 1894, na inauguração do dōjō do Kodokan em Shimotomizaka, Kano executou o kata tendo Katsutarō Oda como parceiro. Entre os convidados estava Kaishū Katsu, que também tinha treinado Kitō-ryū. Ele escreveu para Kano o dístico 無心而入自然之妙、無為而窮変化之神, cuja leitura japonesa corrente fala em entrar no que a natureza tem de sutil sem intenção e alcançar o insondável da mudança sem forçar. O papel está no acervo do museu do Kodokan.
Depois de Kano houve intervenção. A versão que o Kodokan publica hoje foi revista em 11 de abril de 1990 e emendada em 1º de outubro de 2008. Carl De Crée critica o processo: para ele o que o Kodokan chamou de padronização afastou o kata do que Kano transmitiu. Ele não data essa mudança em 1990, e situa nos anos 1980 a reinvenção histórica dos kata do Kodokan. A crítica está num texto em memória de Shōji Inoue (1927–2018), 8º dan do Kodokan e praticante de Kitō-ryū, que demonstrou as formas da escola no Mundial de kata da IJF de 2013, em Kyoto. Quem defende a padronização argumenta que ela tornou possível ensinar e julgar o kata de maneira uniforme.
Divergência de leitura e de ordem entre linhagens é fato reconhecido também do lado japonês. O que se pratica no Judô vem do ramo Takenaka e difere, em pontos, do que foi transmitido em Okayama e em Toyama.
Por que um kata anterior ao Judô continua no programa
Kano tirou do Kitō-ryū a parte do seu Judô que trata de desequilibrar antes de projetar. Manter o kata é manter acessível o material de onde essa parte saiu. O conjunto também mostra, em prática, como se resolvia o corpo a corpo antes de existirem tatame, judogi e regras de competição.
O koshiki-no-kata e o itsutsu-no-kata costumam ser tratados juntos, e os dois tratam de princípio geral do combate. Foram os últimos a entrar na competição internacional, em Paris, em 2025, numa disputa reservada a graduações altas. No regulamento brasileiro de graduação, os dois aparecem como conhecimento teórico, o koshiki-no-kata no 7º dan e o itsutsu-no-kata no 8º.
Não confundir os nomes
- 古式の形, koshiki-no-kata, é o kata tratado aqui. O mesmo conjunto aparece em material antigo como 起倒流の形, kitō-ryū-no-kata.
- 腰, koshi, é quadril, e nomeia um grupo de técnicas do Judô (koshi-waza). Não tem relação com 古式.
- 古式泳法, koshiki eihō, é a natação tradicional japonesa. Também usa 古式, mas é outra prática.
Ver o kata
A gravação abaixo é a do Kodokan, narrada em inglês. Ela cobre as catorze formas do omote e as sete do ura, e mostra a diferença de andamento entre as duas partes.
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Fontes: Kodokan Judo Institute, Kodokan Kata Textbook: Koshiki-no-Kata, tradução oficial aprovada em 18 de janeiro de 2011, com a revisão de 11 de abril de 1990 e a emenda de 1º de outubro de 2008, e as páginas 形 e 古式の形 do Kodokan, em japonês e em inglês, consultadas em 2026. International Judo Federation, Kata Competition: Criteria for the Evaluation, Kata Commission, janeiro de 2025, que já traz koshiki-no-kata e itsutsu-no-kata, e matérias da IJF sobre o Mundial de kata de Paris 2025. Confederação Brasileira de Judô, Regulamento Nacional para Exame e Outorga de Faixas e Graus, Conselho Nacional de Graus, 2023. Para a linhagem do Kitō-ryū, para o ramo Takenaka e para a relação de Kano com Tsunetoshi Iikubo, os verbetes 起倒流, 柔道形 e 嘉納治五郎 da Wikipédia em japonês, com as referências que eles citam, entre elas o Jūdō hiroku de Tadamichi Mizuno e o Bugei ryūha daijiten. Para a análise dos caracteres, Shuowen Jiezi e as notas de paleografia de Qiu Xigui. Carl De Crée, Kitō-ryū jūjutsu and the desolation of Kōdōkan jūdō’s Koshiki-no-kata, Revista de Artes Marciales Asiáticas, vol. 13, n. 2, 2018, pp. 155–171, no texto integral. Não foram consultados no original os documentos de transmissão do Kitō-ryū. A demonstração que Kano teria feito diante do imperador em 1929 aparece em fontes secundárias e não foi confirmada aqui.