O gō-no-kata é um exercício em dupla composto por dez formas. Tori e uke começam o confronto usando força e resistência direta. Em determinado momento tori deixa de responder da mesma maneira, acompanha a força de uke e passa a utilizá-la em seu favor.
O kata não faz parte do currículo atualmente ensinado pelo Kodokan e não entra em competição. Durante boa parte do século XX foi tratado como prática desaparecida. Não desapareceu, mas sua transmissão ficou restrita a poucos praticantes e dependeu principalmente do trabalho de Yoshiyuki Kuhara e, depois, de Toshiyasu Ochiai.
Kuhara considerava o gō-no-kata possivelmente o kata mais antigo do Kodokan, anterior ao nage-no-kata e ao katame-no-kata. De Crée e Jones tratam a hipótese como plausível, sem dar o assunto por resolvido.
O nome
剛, gō, expressa dureza, rigidez e aquilo que não cede facilmente. O caractere junta 刂, forma comprimida de 刀, a faca, com 岡. A análise clássica trata 刂 como componente de sentido e 岡 como componente fonético, ou seja, 岡 entra pelo som. O Shuowen Jiezi define 剛 como o corte feito com força. O mesmo 岡 reaparece em 鋼, que é aço, e em 綱, que é cabo ou corda mestra. Neste kata o termo se refere principalmente à resistência e ao emprego direto da força.
柔, jū, está no outro extremo do par. O caractere junta 木, madeira, com 矛, lança de haste longa. Aqui também o componente que parece mais expressivo é o fonético: o Shuowen analisa 柔 como 从木矛聲, com 木 de sentido e 矛 de som. A definição que dá para o caractere é 木曲直也, madeira que verga e endireita. Existe uma tradição interpretativa que lê 矛 pelo significado e explica 柔 como a haste da lança que dobra sem quebrar, mas isso é leitura posterior e não a construção do caractere.
No Judô, 柔 não significa fraqueza nem ausência de força. O sentido envolve flexibilidade e capacidade de ceder sem perder a possibilidade de agir.
Essa relação ajuda a entender por que Kano também chamava o exercício de 剛柔の形, gōjū-no-kata. O kata não apresenta gō e jū como duas alternativas das quais apenas uma seria correta. As duas aparecem dentro da mesma situação, em momentos diferentes.
形, kata, significa forma. O caractere junta 彡, componente de sentido, com 幵, fonético. Os três traços de 彡 representam o que se vê na superfície: pelo, textura, aparência. 形 é a forma tal como se manifesta.
O Judô escreve 形. O karatê em geral escreve 型, que traz 土, terra ou barro, e designa o molde de fundição. Os dois se leem kata. A escolha de caractere difere entre as artes, o que aparece com frequência em material japonês.
Como funciona
Tori e uke começam usando resistência direta. Empurram, puxam e disputam posição com força. Tori mantém essa oposição até chegar perto do ponto em que ela deixa de ser vantajosa. Então altera a resposta, usa tai-sabaki e aproveita a força produzida por uke.
Ceder cedo demais muda o exercício. A primeira parte existe para que o praticante experimente a oposição de força antes da mudança para jū.
O jū-no-kata trabalha o outro lado da mesma relação. Nele a situação começa em jū e permanece em jū. No gō-no-kata começa em gō e termina em jū. Os dois chegam ao princípio expresso por 柔能く剛を制する (jū yoku gō wo sei suru), normalmente traduzido como a ideia de que a flexibilidade controla a dureza. No gō-no-kata esse resultado vem depois de uma fase deliberada de resistência.
As dez formas
A relação preservada por Kuhara e Ochiai contém dez formas, nas quais aparecem sete técnicas distintas. Três delas retornam com entradas diferentes.
| Nº | Técnica | Sentido |
|---|---|---|
| 1 | Seoi-nage | Arremesso pelo ombro |
| 2 | Ushiro-goshi | Quadril por trás |
| 3 | Sukui-nage | Arremesso de concha |
| 4 | Hidari-seoi-nage | Seoi-nage pelo lado esquerdo |
| 5 | Uki-goshi | Quadril flutuante |
| 6 | Hadaka-jime, depois koshi-kudaki | Estrangulamento sem uso do judogi, seguido de koshi-kudaki |
| 7 | Tobi-goshi, depois uki-goshi | Tobi-goshi seguido de uki-goshi |
| 8 | Ō-soto-otoshi | Grande queda externa |
| 9 | Ushiro-goshi | Ushiro-goshi com outra entrada |
| 10 | Kata-guruma | Roda de ombro |
Como se pratica
A postura defensiva, jigotai, aparece de maneira marcante ao longo do kata. A base é larga e o centro de gravidade fica baixo. Algumas posições lembram formas antigas de luta e movimentos encontrados no sumô. Na terceira forma, sukui-nage, a posição inicial chega a lembrar uma disputa de queda de braço feita em pé.
As pegadas diferem do kumikata que se tornou habitual no Judô moderno. Kuhara relaciona isso ao judogi dos primeiros tempos do Kodokan, que não cobria cotovelo nem joelho e exigia formas de pegar mais defensivas. Há formas nas quais os praticantes seguram diretamente as mãos ou os braços um do outro enquanto empurram ou puxam.
Outra característica é a ausência de projeção completada. Tori estabelece kuzushi e tsukuri, mas interrompe a técnica antes do kake. Nesse aspecto há proximidade clara com o jū-no-kata.
O exercício também trabalha a percepção da tensão produzida pelo parceiro. A resistência não serve apenas para aumentar o esforço físico. Ela cria a condição para que tori perceba quando a força de uke já pode ser aproveitada para produzir kuzushi ou para mudar de posição.
Há ainda um componente explícito de preparação física. Kuhara registra que Hideichi Nagaoka utilizava o kata antes do keiko, e que a prática exigia esforço suficiente para fazer o praticante suar mesmo no inverno. Nagaoka associava o exercício ao desenvolvimento de força física, disposição e força de vontade.
Por que deixou de ser ensinado
Kano não considerava o gō-no-kata terminado. Em 1921 escreveu que havia ensinado o exercício anteriormente, mas que três ou quatro das dez formas ainda não o satisfaziam. Pretendia revê-las e completar o trabalho no futuro. No mesmo texto descreveu o princípio do kata: os dois praticantes começam empurrando, puxando ou torcendo um ao outro com força, e no final um deles vence ao se adaptar à força recebida.
Kano encerrou a passagem dizendo que, enquanto o trabalho não fosse concluído, estudar ou não o kata ficaria a critério do praticante.
Em 1927 voltou ao assunto. Escreveu novamente que tori e uke começavam enfrentando força com força e que depois tori mudava para jū. Repetiu que havia deixado de ensinar o kata porque não estava satisfeito com alguns pontos e que pretendia aperfeiçoá-lo. Morreu em 1938 sem realizar essa revisão.
Dizer que ele aboliu ou rejeitou o gō-no-kata não corresponde bem ao que escreveu. Interrompeu o ensino regular porque considerava o exercício incompleto, sem condenar sua prática.
A reunião do Butokukai realizada em Kyoto, em 1906, ajuda a explicar por que o kata nunca passou pelo mesmo processo de consolidação de outras formas. O encontro tratou principalmente do nage-no-kata, do katame-no-kata e do kime-no-kata. O próprio jū-no-kata não foi incorporado à padronização naquela ocasião. O gō-no-kata, que Kano considerava ainda menos desenvolvido, ficou fora do processo.
O gō-no-kata na literatura ocidental
Boa parte da confusão em torno do kata surgiu porque diferentes autores ocidentais repetiram uma informação incorreta.
- 1944. Moshé Feldenkrais menciona o gō-no-kata como exercício destinado ao desenvolvimento da força. A descrição é breve e correta.
- 1948. Gunji Koizumi também o descreve como exercício de força e resistência, mas informa quinze formas em vez de dez.
- 1957. Mikonosuke Kawaishi descreve o gō-no-kata como kata de força ou de golpes e o aproxima do karatê e dos atemi. De Crée e Jones não encontraram fonte anterior fazendo essa associação. Kawaishi vinha do jūjutsu e não há indício de que tenha visto o kata executado.
- 1985 e 1998. George Parulski publica descrição semelhante à de Kawaishi e depois apresenta em vídeo um suposto gō-no-kata com vinte técnicas, misturando projeções do Judô a golpes e bloqueios de karatê. Atribui a transmissão a um homem chamado Isao Obato, que teria sido aluno de Kano e de Mifune. De Crée e Jones não encontraram documentação capaz de sustentar essa linhagem.
- 2005. Jan Muilwijk apresenta na Holanda outra versão do exercício e depois publica um livro sobre ela. A comparação das listas mostra que sua sequência deriva do material de Parulski.
Existem hoje dois conteúdos muito diferentes circulando sob o mesmo nome. A tradição preservada por Kuhara e Ochiai tem dez formas e trabalha oposição, resistência, mudança para jū, kuzushi e entrada técnica, sem sequência de socos, chutes e bloqueios. A versão derivada de Parulski tem cerca de vinte técnicas, usa terminologia de karatê e costuma vir acompanhada da afirmação de que Kano e Gichin Funakoshi teriam desenvolvido o exercício em conjunto.
A cronologia não fecha. A demonstração de Funakoshi no Kodokan aconteceu em 1922, quando Kano já havia ensinado e praticamente deixado de ensinar o gō-no-kata.
A preservação do kata
A última demonstração pública do gō-no-kata no Kodokan antes do longo intervalo aconteceu em 1948, na fundação do Dōyūkai, executada por Fusatarō Sakamoto e Kiyoichi Takagi.
Yoshiyuki Kuhara reuniu material a partir de fontes diferentes. Menciona escritos de Hideichi Nagaoka e Kaichirō Samura, além da colaboração de Sakamoto e de Shōichirō Satō, dois praticantes idosos que ainda conheciam o kata.
Em 1976 Kuhara publicou Jūdō Mizu-Nagare, com a história do gō-no-kata, explicações das formas e fotografias em que ele próprio aparece como tori e Satō como uke. A circulação foi pequena. O livro era 非売品 (hibaihin), sem destinação comercial. Depois da morte de Kuhara, em 1985, e do fim de seu dōjō, tornou-se muito difícil encontrar exemplares.
Seu sobrinho e aluno Toshiyasu Ochiai continuou o trabalho. Em 1998 preparou uma apostila dedicada apenas ao gō-no-kata, baseada no material de Kuhara, com fotografias refeitas, agora com Ochiai como tori e Yutaka Taniguchi como uke. Naquele mesmo ano os dois apresentaram o kata numa reunião do Dōyūkai realizada no Kodokan. Segundo o registro citado por De Crée e Jones, fazia cerca de cinquenta anos que o exercício não era demonstrado publicamente ali.
Em 2007 a apostila de Ochiai ganhou edição alemã organizada por Klaus Hanelt e publicada pela Verlag Dieter Born. No ano seguinte Ochiai realizou nos Estados Unidos uma clínica dedicada ao kata. Em 2009 Toshirō Daigo, instrutor-chefe do Kodokan, incluiu o gō-no-kata como kata legítimo e existente numa publicação sua.
O papel dos praticantes de koryū
As pessoas envolvidas na preservação tinham vínculo com escolas anteriores ao Judô. Fusatarō Sakamoto tinha ligação com o Tenjin Shin’yō-ryū. Shōichirō Satō havia estudado Sōsuishitsu-ryū. Kuhara mantinha interesse e prática em artes clássicas.
Isso não faz do gō-no-kata um kata retirado de alguma dessas escolas. Kuhara o trata como criação de Kano, reconhecendo influências do jūjutsu anterior ao Judô. Parte importante da transmissão permaneceu entre pessoas que conservaram contato com práticas anteriores à transformação do Judô em esporte predominantemente competitivo.
Registros em vídeo
O gō-no-kata não integra a série de vídeos de kata publicada pelo Kodokan no seu canal oficial. O que está lá são os kata do currículo atual, entre eles o seiryoku zen’yō kokumin taiiku, que nem sequer entra em competição. A observação vale para o material publicado no canal, não para tudo o que a instituição possa guardar em acervo.
De Crée e Jones registram que Ochiai produziu uma gravação amadora do kata e que o Kodokan não participou de sua realização nem a endossou.
A demonstração abaixo tem pouco menos de cinco minutos. Não há informação sobre sua procedência, mas o conteúdo corresponde às características descritas nas fontes: uso constante de jigotai, pegada direta nas mãos e no judogi, oposição de força, ausência de atemi e interrupção das projeções antes da conclusão.
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Não confundir os nomes
Três termos diferentes podem aparecer de maneira parecida quando escritos em alfabeto latino.
- 剛の形, gō-no-kata. 剛 significa dureza, firmeza ou resistência. É o kata tratado neste texto.
- 五の形, itsutsu-no-kata. 五 significa cinco. A confusão ocorre porque o caractere também se lê go em outros contextos.
- 後の先の形, gonosen-no-kata. 後 significa depois. Trata-se de um estudo de contra-ataques, sem relação com o gō-no-kata.
Fontes: Carl De Crée e Llyr C. Jones, Kōdōkan Jūdō’s Elusive Tenth Kata: The Gō-no-kata, “Forms of Proper Use of Force”, partes 1, 2 e 3, Archives of Budo, vol. 5, 2009. Judo-Verband Schleswig-Holstein, Lehrbrief Kata, 2020. Para a análise dos caracteres, Shuowen Jiezi. As informações atribuídas a Yoshiyuki Kuhara, Jūdō Mizu-Nagare, 1976, e a Toshiyasu Ochiai, Gō-no-kata, 1998, são citadas a partir do levantamento de De Crée e Jones, sem consulta aos originais. A data de criação permanece incerta: fontes do Kodokan indicam 1887, enquanto De Crée e Jones questionam essa atribuição e consideram plausível uma origem anterior a 1885.