História do Judô: da fundação do Kōdōkan à visão de Kyūzō Mifune

Nota editorial

Aqui segue um estudo da história do Judô. Começo com um trecho que traduzi do livro Canon of Judo, de Kyuzo Mifune, 10º Dan da Kodokan. O trecho, aqui chamado de “A FUNDAÇÃO DA KODOKAN”, foi traduzido da edição inglesa de Françoise White, publicada em 2004. Não foi utilizado o texto inglês de K. Sugai. A tradução foi mantida fiel aos escritos originais. As notas registram nomes, datas e informações que precisam ser conferidos com outras fontes.

Há duas edições japonesas que devem ser consideradas. A primeira foi publicada em maio de 1954 com o título Jūdō Kyōten: Michi to Waza (柔道教典 道と術). A edição revista apareceu em abril de 1965 como Jūdō no Shinzui: Michi to Waza (柔道の真髄 道と術). Segundo a Seibundō Shinkōsha, Mifune examinou o material revisto, mas morreu em janeiro daquele ano, antes da publicação. The Canon of Judo: Classic Teachings on Principles and Techniques, de Françoise White, foi traduzido a partir dessa revisão.

Na parte histórica, os termos japoneses seguem a romanização Hepburn. Os nomes são apresentados, na primeira ocorrência, na ordem japonesa, com o sobrenome antes do nome. A palavra kata permanece invariável no plural.

1. Tradução anotada

O texto a seguir está exatamente como foi traduzido do livro The Canon of Judo: Classic Teachings on Principles and Techniques, de Françoise White, 2004. Foram inseridas vinte notas para indicar divergências históricas, variações entre fontes e passagens que refletem a interpretação de Mifune.

A FUNDAÇÃO DO KODOKAN

Com a restauração Meiji, o modelo de Japão feudal foi abolido com a queda do Shogunato Tokugawa e o povo se alegrou com a chamada “civilização” ocidental.1

Naturalmente, nos primeiros anos da era Meiji, as artes marciais, com os velhos costumes, saíram de moda por serem consideradas obsoletas e desajeitadas frente à novidade do ocidente, restando somente uns poucos mestres renomados dispostos a manter sua arte.2

Neste período, vivia em Daikucho, Nihonbashi, um homem chamado Fukuda Hachinosuke, antigo mestre do Instituto de Artes Marciais da era Tokugawa e um célebre mestre da Escola Tenshin Shinyo que, incapaz de ganhar a vida ensinando Jujutsu, dedicou-se a quiropraxia.3

Jigoro Kano, que se interessou muito pelo Jujutsu desde seus 18 anos, estudou com Fukuda e após a morte deste, ele continuou seus estudos e treinamento com Ishizue Masatomo, que tinha um dojo em Otamaga-ike, Kanda.45

Aqui Kano tornou-se mestre dos princípios do Jujutsu. No entanto, Ishizue também faleceu no 14º ano da era Meiji.6

Frustrado, Kano procurou por outro mestre e recebeu instrução de Iikubo Kohei, um grande mestre da Escola Kito, onde aprendeu muito sobre técnicas de arremesso.7

Originalmente, na escola Tenshin Shinyo, treinavam-se técnicas de ataque corpo-a-corpo e torção, enquanto a característica da Escola Kito era a técnica de arremesso, e o Judô Kodokan, originado pelo mestre Kano deve muito ás duas escolas acima para a fundação da escola.8

Mestre Kano se formou na Universidade Imperial de Tóquio no ano de Meiji, mas, não satisfeito com o que havia adquirido através de seu estudo e treinamento de Jujutsu, mudou sua residência no 15º ano de Meiji para o Templo Eishoji em Shitaya, onde ele originou o Judô a partir da reforma do Jujutsu.910 Ele começou o Judô com uma cultura moral muito mais ampla adicionada à arte marcial, e ensinou jovens discípulos. Este foi o início da escola Kodokan. Mestre Kano tinha 23 anos. A sala de exercícios era somente uma sala de dez tapetes ocupando parte do templo e os alunos eram somente nove ao todo.11

A razão pela qual Mestre Kano originou o Kodokan Judô foi que, enquanto as diferentes escolas de Jujutsu tinham suas próprias características e defeitos em muitos pontos, e seus objetivos diretos eram unicamente adquirir maneiras de atacar e defender, o Judô Kodokan visava ser não somente mais uma escola, mas também um meio de auxiliar o treinamento físico e espiritual e contribuir mais efetivamente na formação educacional e cultural de seus praticantes.12

Logo a sala de exercícios no Templo Eishoji foi logo movida para Minami-jinbocho, Kanda, depois para Kami-nibancho, Koji-machi e depois para Fujimicho, Kojimachi e, posteriormente, por Shimo-Tomizakacho, Koishikawa e Sakashitamachi, Otsuka, até em janeiro, o 9º ano de Showa (1934), no local atual perto de Suido-bashi foi fundado o Grande Salão Kodokan.1314

Na verdade, em cerca de cinquenta anos, uma pequena arena de 10 tapetes se transformou em um gigantesco corredor de 514 tapetes com estudantes chegando a várias centenas de milhares. Além disso, atualmente o Judô parece fascinar as pessoas de todo o mundo, sendo difundido no Reino Unido, Estados Unidos, França, Alemanha, Itália, União Soviética, etc.15

Depois da Guerra, os verdadeiros méritos do Judô são cada vez mais apreciados e é um dos elementos mais importantes da cultura japonesa.16

O Judô consiste em empregar a força mental e física de forma mais eficaz.

Essa é uma expressão muito simples e lacônica, que simplifica o Judô Kodokan, mas a essência dela é o uso eficaz da energia visando a prosperidade mútua, ou, explicando melhor, a resposta a “O que é Judô?”, “Ju-no-michi” ou “Caminho do Ju”:17

“Ju” significa “ser natural” ou, em outras palavras: 18

Caminho que é natural e está conforme a verdade do Universo e aquela que os seres humanos devem seguir.

E:

Qualquer coisa razoável, justa e honrada, consequentemente nobre: a saber, a realização da Verdade, do Bem e da Beleza.19

O Judô é mostrado por meio da técnica, adquirida pelo treinamento baseado no estudo científico.20

2. Formação histórica do Judô

2.1 As escolas de jūjutsu

O Kōdōkan foi fundado em 1882. As técnicas utilizadas por Kanō, no entanto, pertenciam a tradições bem anteriores. Antes do Judô existiam escolas conhecidas pelos nomes jūjutsu, yawara, taijutsu, torite, kogusoku e outros. Não havia um sistema único. Cada linhagem possuía seu currículo, sua forma de transmissão e suas relações com famílias, domínios ou instituições policiais.

Essas escolas podiam ensinar combate em armadura, prisão de suspeitos, luta desarmada, armas curtas, golpes, projeções, imobilizações, estrangulamentos, controles articulares e métodos de reanimação. Durante o período Edo, entre 1603 e 1868, grande parte desse conhecimento foi organizada em kata. Os papéis e as ações eram conhecidos pelos dois praticantes, o que permitia estudar situações perigosas com controle. Algumas escolas também empregavam exercícios livres semelhantes ao que depois seria chamado de randori.

Takenouchi ryū costuma ser citada por sua antiguidade, mas não deve ser tratada como origem única de todo o jūjutsu. A formação técnica de Kanō ocorreu principalmente na Tenjin Shin’yō ryū e na Kitō ryū, acompanhada pelo estudo de outras tradições.

2.2 O início da era Meiji

A Restauração Meiji substituiu o regime dos Tokugawa por um Estado centralizado. A extinção dos domínios, o fim dos estipêndios, a conscrição nacional, a criação de uma polícia moderna e a proibição do porte público de espadas atingiram diretamente a posição social e econômica dos antigos guerreiros. Muitos professores perderam o sustento. Algumas escolas encerraram suas atividades; outras continuaram no âmbito familiar, em exibições públicas, na polícia ou no ensino.

Esse declínio não foi definitivo. Ainda na década de 1870 ocorreram apresentações públicas e tentativas de adaptar as artes marciais às novas condições. Na década seguinte, a polícia e o sistema educacional abriram outras possibilidades. A criação do Dai Nippon Butokukai, em 1895, deu ao budō uma organização de alcance nacional.21

2.3 Kanō Jigorō e seus professores

Kanō Jigorō nasceu em 1860, em Mikage, atual Kobe. Mudou-se para Tóquio e procurou o jūjutsu inicialmente por razões de fortalecimento físico e defesa pessoal. Seu primeiro professor foi Fukuda Hachinosuke, da Tenjin Shin’yō ryū, em 1877. Após a morte de Fukuda, em 1879, continuou na mesma tradição com Iso Masatomo. Em 1881, depois da morte de Iso, passou a estudar Kitō ryū com Iikubo Tsunetoshi.

Os três professores tiveram importância diferente em sua formação. Fukuda valorizava a experiência direta e a prática livre. Iso era conhecido pelo domínio dos kata. Iikubo forneceu a Kanō uma compreensão mais aprofundada das projeções, do equilíbrio e do movimento.

Kanō concluiu seus estudos principais na Universidade de Tóquio em 1881 e prosseguiu nas áreas de filosofia, ética e estética. Em fevereiro de 1882, instalou no templo Eishōji o Kanō juku, destinado ao alojamento e à educação de alunos. Em maio fundou no mesmo local o Kōdōkan. Mifune descreve o primeiro espaço com dez tatames. A tradição atual do Kōdōkan fala em doze. As duas versões mencionam nove alunos ou seguidores.

2.4 A organização do novo método

Kanō não se limitou a retirar técnicas perigosas do jūjutsu. Ele reuniu materiais de escolas diferentes, selecionou as ações que considerava adequadas ao treinamento e continuou revendo o currículo. As técnicas incompatíveis com a prática livre permaneceram no kata ou foram afastadas do randori. O estudo sistemático das quedas tornou possível repetir projeções com menor risco.

A explicação das técnicas também recebeu maior importância. Desequilíbrio, preparação e execução passaram a ser examinados de forma consciente, posteriormente expressos pelos termos kuzushi, tsukuri e kake. Kanō adotou as graduações kyū e dan, organizou regras, eventos e formação de professores. Com isso, o ensino deixou de depender exclusivamente da transmissão reservada de uma família ou escola.

O objetivo declarado era educacional. O treinamento deveria desenvolver o corpo, a inteligência, o caráter e a capacidade de agir em benefício da sociedade. O Kōdōkan cresceu em contato com escolas, universidades, polícia, forças armadas e organizações esportivas. Por essa razão, sua história também se relaciona com o nacionalismo, o império e a militarização do Japão moderno.

2.5 Os métodos de ensino e o shiai

Os termos kata, randori, kōgi e mondō são, às vezes, apresentados como os “quatro pilares” do Judô. Essa denominação é recente e serve apenas como figura de linguagem. Nos textos históricos e institucionais, eles aparecem como métodos de estudo ou de formação.

Em 1921, Kanō tratou diretamente do assunto no artigo Ippan no shugyōsha ni kata no renshū o susumeru, publicado em Yūkō no Katsudō, volume 7, número 11, páginas 2 a 6. O texto está disponível na Biblioteca Nacional da Dieta do Japão. Nele aparece a seguinte frase:

柔道の修行は、一面には講義・問答により、一面には乱取・形による。

Em português: “A formação no Judô se realiza, por um lado, por meio de kōgi e mondō e, por outro, por meio de randori e kata.” Kanō observava que o randori havia recebido espaço muito maior do que os outros três métodos e defendia o restabelecimento de um estudo mais equilibrado.

MétodoFunção
Kata (形)Estudo de ações previamente definidas. Permite examinar princípios de ataque e defesa e praticar, de forma controlada, técnicas que não podem ser empregadas livremente.
Randori (乱取)Prática livre de ataque e defesa, realizada com atenção à segurança e ao parceiro. Coloca o praticante diante de situações que mudam continuamente.
Kōgi (講義)Aula ou exposição sobre técnica, anatomia, fisiologia, física, psicologia, ética, educação e outros assuntos ligados à formação.
Mondō (問答)Perguntas e respostas entre professor e alunos. Serve para esclarecer, confrontar e aprofundar o que foi aprendido nos outros métodos.

Essas funções constam da seção shugyō hōhō, métodos de formação, do atual material do Kōdōkan para exames de graduação. A Federação Japonesa de Judô também atribui os quatro métodos a Kanō no projeto Judo MIND.

A relação entre kata, randori e shiai

A sequência kata, randori e shiai é usada em textos que tratam da prática técnica e da competição. Ela não substitui a relação dos quatro métodos, pois classifica atividades de outra natureza.

PráticaCaracterística
Kata (形)Estudo de situações e princípios previamente organizados.
Randori (乱取)Exercício livre, no qual os praticantes atacam, defendem, erram e corrigem a técnica sem depender de um resultado oficial.
Shiai (試合)Combate formal, com regras, tempo, arbitragem e critérios de vitória.

O shiai se aproxima do randori porque ambos admitem ataque e defesa livres. A diferença está na finalidade e nas condições. No randori, o praticante pode experimentar e aceitar o erro como parte do aprendizado. No shiai, as decisões são tomadas sob pressão de tempo e resultado.

O material oficial do Kōdōkan apresenta os quatro métodos na seção sobre formação e trata de randori e shiai em capítulo separado. O texto afirma que o randori prepara o corpo e a mente para a competição, mas adverte que a busca da vitória não deve se tornar seu objetivo principal.

O shiai já ocupava lugar importante no Kōdōkan muito antes dos Jogos Olímpicos. A cronologia da instituição registra disputas mensais e competições entre equipes vermelha e branca desde 1884. As regras de competição foram publicadas em 1900. A entrada nos Jogos, em 1964, ampliou a organização e o alcance internacional, mas não criou a competição no Judô.

Uemura Haruki apresentou essa mesma distinção em entrevista à IJF. Ao falar do ensino, citou kata, randori, kōgi e mondō. Ao tratar da competição, afirmou que os princípios aprendidos durante a formação também devem aparecer no shiai. A entrevista pode ser consultada em “Uemura Sensei: Principles First”.

Kata e randori são as duas formas principais de prática técnica reconhecidas pelo Kōdōkan Global. A relação formada por kata, randori, kōgi e mondō corresponde aos métodos de formação apresentados por Kanō. A sequência kata, randori e shiai trata da relação entre treinamento técnico e competição.

2.6 As primeiras competições

Durante a década de 1880, alunos do Kōdōkan participaram de demonstrações e de encontros ligados à Polícia Metropolitana de Tóquio. Os resultados obtidos contra representantes de outras escolas aumentaram a reputação do novo método. A narrativa popular costuma reduzir esse processo a um torneio decisivo ocorrido em 1886. Os registros indicam uma série de encontros realizados em anos diferentes. A adoção do Judô pela polícia foi gradual.

Quatro alunos ficaram conhecidos como Kōdōkan Shitennō. A palavra Shitennō (四天王) significa “Quatro Reis Celestes” e, por extensão, designa quatro grandes defensores ou representantes. A expressão “quatro pilares” é uma adaptação moderna, não a tradução literal do termo.

3. Os quatro Shitennō do Kōdōkan

JudocaPapel no Kōdōkan inicialO que aconteceu depois
Tomita Tsunejirō (1865 a 1937)Foi o primeiro nome inscrito no livro de matrículas. Com Saigō, recebeu uma das duas primeiras graduações de shodan concedidas pelo Kōdōkan. Atuou como professor e organizador.Abriu uma filial em Nirayama em 1887, participou das primeiras atividades de ensino para mulheres e viajou aos Estados Unidos com Maeda Mitsuyo. Morreu em 1937 como sétimo dan. Seu filho, Tomita Tsuneo, escreveu o romance Sugata Sanshirō. O perfil biográfico registra sua posição entre os primeiros alunos.
Saigō Shirō (1866 a 1922)Entrou no Kōdōkan em agosto de 1882. Tornou-se conhecido pela velocidade e pelo uso do yama arashi. Foi a figura mais celebrada dos relatos sobre as primeiras vitórias da escola.Deixou o Kōdōkan em 1890, durante uma viagem de Kanō ao exterior. A versão de que teria sido expulso por causa de uma briga é conhecida, mas não está documentada de forma suficiente. Viveu em Nagasaki, trabalhou no jornal Tōyō Hinode Shimbun e ensinou Judô, kyūdō e natação. Morreu em 1922 e recebeu o sexto dan postumamente em 1923. O personagem Sugata Sanshirō foi parcialmente inspirado em sua vida. Ver o registro histórico de Nagasaki.
Yokoyama Sakujirō (cerca de 1864 a 1912)Já possuía experiência na Tenjin Shin’yō ryū quando ingressou no Kōdōkan, em 1886. Conhecido como “Oni Yokoyama”, participou dos encontros que deram projeção à escola.Foi instrutor da polícia, professor, autor e participante da organização dos kata. Mifune treinou sob sua orientação. Morreu em 1912 e recebeu o oitavo dan postumamente. Não há fundamento seguro para a história de que teria morrido em duelo. Ver a Kotobank.
Yamashita Yoshitsugu (1865 a 1935), também lido YoshiakiEntrou em 1884, participou dos encontros iniciais e se tornou professor do Kōdōkan, da polícia e de instituições militares e universitárias.Viajou aos Estados Unidos em 1903, ensinou Theodore Roosevelt e trabalhou com a Academia Naval. Regressou ao Japão em 1906. Após sua morte, em 1935, foi promovido ao décimo dan, tornando-se o primeiro judoca a receber essa graduação. O Museu do Kōdōkan registra o ensino a Roosevelt e a promoção.

Os quatro não formavam um conselho permanente. O título reúne alunos que tiveram participação decisiva na defesa técnica e na divulgação do primeiro Kōdōkan. Suas trajetórias foram diferentes. Saigō deixou a instituição ainda jovem; Yokoyama morreu em 1912; Tomita se dedicou principalmente ao ensino; Yamashita assumiu posição de grande representante institucional e internacional.

4. O crescimento do Kōdōkan

4.1 Sedes, currículo e regras

O Kōdōkan ocupou vários endereços enquanto aumentavam o número de alunos e as atividades de Kanō. Depois de Eishōji, passou por Minami Jinbōchō, Kami Nibanchō, Fujimichō, Masagochō, novamente Kami Nibanchō e Shimo Tomisakachō. A mudança para Koishikawa, junto a Suidōbashi, ocorreu em dezembro de 1933. O edifício foi inaugurado em março de 1934. A sede de Kasuga foi aberta em 1958. A sequência pode ser consultada na cronologia do Kōdōkan.

O currículo e as regras também foram organizados por etapas.

  1. Em 1884, o Kōdōkan criou seu juramento formal e estabeleceu atividades como kagami biraki, treinamento de inverno, encontros mensais e competições entre equipes vermelha e branca.
  2. Em 1895, foi publicado o primeiro Gokyō no Waza, com as projeções distribuídas em cinco grupos. A classificação foi revista em 1920.
  3. Em 1900, foram publicadas regras para as competições de randori.
  4. Em 1906, Kanō presidiu uma comissão do Dai Nippon Butokukai, com representantes de outras escolas. O trabalho contribuiu para a forma assumida pelo Nage no kata, pelo Katame no kata e pelo Kime no kata.
  5. Em 1908, o Kōdōkan determinou o uso de mangas mais longas no uniforme, parte do processo de padronização do jūdōgi e das pegadas.

O sistema conhecido atualmente é resultado dessas revisões. A fundação de 1882 marcou o início do trabalho institucional, não a conclusão de todo o currículo.

4.2 e o emprego da energia

Jūdō significa “caminho do ”. Em sua explicação mais comum, corresponde à capacidade de ceder ou se adaptar em vez de responder à força com rigidez. Kanō reconhecia, entretanto, que uma técnica também pode exigir entrada, impulso, elevação ou iniciativa. A cedência, isoladamente, não explicava todo o sistema. O princípio foi formulado de modo mais amplo: empregar a energia física e mental da maneira mais apropriada à situação.

Em 1922, a Sociedade Cultural do Kōdōkan passou a apresentar em conjunto duas máximas. Seiryoku zen’yō (精力善用) se refere ao melhor uso da energia. Jita kyōei (自他共栄) se refere ao benefício e à prosperidade de si e dos outros. A primeira orienta a ação; a segunda define sua finalidade social. O Kōdōkan utiliza essa relação ao explicar os princípios do Judô.

4.3 Educação, polícia, Estado e império

Kanō ocupou postos importantes no sistema educacional, entre eles a direção da Escola Normal Superior de Tóquio. A formação de professores permitiu que o Judô chegasse a outras escolas e províncias. A polícia constituiu outra rede de ensino, voltada para a disciplina física, a contenção e a defesa pessoal.

O crescimento também ocorreu dentro do Estado imperial japonês. Professores e filiais atuaram em territórios colonizados, instituições militares e redes diplomáticas. A cronologia do Kōdōkan registra, por exemplo, uma filial em Seul em 1917, quando a Coreia estava sob domínio japonês. A difusão internacional envolveu intercâmbio, migração e interesse estrangeiro, mas também relações coloniais e ação do Estado.

Kanō participou ainda da organização esportiva internacional. Tornou-se o primeiro membro asiático do Comitê Olímpico Internacional em 1909, fundou a Associação Atlética Amadora do Japão em 1911 e chefiou a primeira delegação olímpica japonesa em 1912. Seu trabalho no movimento olímpico não se limitava ao interesse de incluir o Judô nos Jogos. Ele considerava o esporte um meio de educação e criticava sua redução ao resultado. O Comitê Olímpico Japonês relaciona sua atuação olímpica à sua concepção de educação.

4.4 Mulheres no Kōdōkan

Mulheres já praticavam jūjutsu fora do Japão no início do século XX, inclusive em grupos de autodefesa ligados ao movimento sufragista britânico. No Kōdōkan, Kanō ensinou sua esposa e outras conhecidas ainda no século XIX. O acesso regular, porém, demorou. As fontes registram o planejamento de uma divisão feminina em 1923, atividades regulares entre 1923 e 1926, aulas no dōjō de Kaiunzaka em 1926 e a instalação de uma seção própria no edifício de 1934.

O ensino seguia as concepções de gênero do período. Para as mulheres, havia maior ênfase em educação física, kata e formação moral, enquanto a competição permaneceu proibida durante décadas. Fukuda Keiko, neta de Fukuda Hachinosuke e aluna direta de Kanō, teve participação central na divulgação internacional do Judô feminino. O primeiro Campeonato Mundial feminino ocorreu em 1980. A modalidade foi apresentada como demonstração olímpica em 1988 e entrou oficialmente nos Jogos em 1992. A história publicada pela IJF reúne essas etapas.

5. Formação dos kata do Judô

5.1 O kata antes do Kōdōkan

Nas escolas clássicas, o kata era um dos principais meios de transmissão. Ataque, reação, distância, uso do espaço, armas, quedas e controles eram organizados numa prática entre tori, que executa a resposta, e uke, que apresenta o ataque e recebe a técnica. O conhecimento prévio da sequência permitia abordar ações perigosas sem transformar o exercício em combate real.

Kanō aprendeu kata da Tenjin Shin’yō ryū e da Kitō ryū. Nos primeiros anos do Kōdōkan, ensinou formas recebidas dessas escolas e as modificou conforme organizava seu currículo. Ao mesmo tempo, ampliou o randori com técnicas escolhidas para a prática livre. O kata conservou técnicas que não podiam ser testadas com segurança, estabeleceu modelos de projeção, controle e defesa e passou a educar distância, ritmo, intenção, etiqueta e cooperação.

O kata e o randori tratam o mesmo problema em condições diferentes. No primeiro, a situação é organizada para permitir estudo detalhado. No segundo, o praticante precisa reconhecer a oportunidade enquanto ela se modifica.

5.2 A formação dos primeiros kata do Kōdōkan

A cronologia das primeiras versões varia porque Kanō alterou sequências e nomes ao longo do tempo. O Nage no kata e o Katame no kata começaram a tomar forma em meados da década de 1880 e tiveram conjuntos menores antes de chegar às quinze técnicas atuais. A cronologia do Kōdōkan registra o Jū no kata e o Katame no kata em 1887. O antigo shōbu no kata, também chamado shinken shōbu no kata, foi desenvolvido até assumir a forma do Kime no kata.

Em 1906, uma comissão do Dai Nippon Butokukai presidida por Kanō reuniu professores de diferentes escolas para discutir formas comuns. O Nage no kata do Kōdōkan foi aceito; cinco técnicas foram acrescentadas ao Katame no kata; e o Kime no kata chegou às vinte ações que possui atualmente. O Koshiki no kata, por sua vez, conservou com poucas alterações formas da Kitō ryū ligadas ao movimento em armadura.

Os kata do Judô possuem origens diferentes. Alguns foram compostos no Kōdōkan, outros preservam estruturas anteriores e outros receberam a contribuição de professores de várias escolas. A Universidade de Tsukuba registra a participação de diferentes ryūha no trabalho de 1906.

5.3 Os nove kata principalmente adotados hoje pelo Kōdōkan

KataEstrutura e propósito principalFormação histórica
Nage no kataQuinze projeções. São três exemplos de cada grupo tradicional: mão, quadril, pé ou perna, sacrifício para trás e sacrifício lateral.Desenvolvido desde a década de 1880 e consolidado no processo de 1906. Com o Katame no kata, forma o randori no kata.
Katame no kataQuinze controles, divididos em imobilizações, estrangulamentos e controles articulares. Inclui tentativas de escape e reajuste.Possuía inicialmente dez técnicas e recebeu outras cinco durante a padronização.
Kime no kataVinte defesas contra ataques desarmados e armados, sendo oito realizadas de joelhos e doze em pé.Deriva de formas destinadas ao confronto sério. A estrutura atual foi consolidada em 1906.
Jū no kataQuinze ações em três séries. Estuda adaptação, redirecionamento e controle sem exigir quedas violentas.Registrado pelo Kōdōkan em 1887. Também foi utilizado como forma de educação física.
Kōdōkan Goshin jutsuVinte e uma defesas contra agarramentos, golpes, faca, bastão e pistola.Instituído em 1956 para atualizar o estudo da defesa pessoal.
Itsutsu no kataCinco formas abstratas relacionadas a forças e fenômenos naturais.Vinculado à pesquisa tardia de Kanō. As cinco formas não possuem nomes técnicos individuais.
Koshiki no kataVinte e uma formas, sendo quatorze omote e sete ura, com movimentos relacionados ao combate em armadura.Conserva um kata da Kitō ryū com pequenas alterações, segundo o Kōdōkan.
Seiryoku Zen’yō Kokumin TaiikuExercícios individuais e em dupla, reunindo educação física, ataque, defesa e uso eficiente da energia.Apresentado por Kanō em 1924.
Kodomo no kataProgressão para crianças, com etiqueta, segurança, quedas, deslocamentos e fundamentos.Inclusão recente na relação principal do Kōdōkan.

Livros de períodos diferentes podem apresentar cinco, sete ou oito kata. A página atual do Kōdōkan Global relaciona nove. Outros conjuntos praticados no meio do Judô podem ter valor histórico ou pedagógico sem integrar essa lista oficial.

5.4 Os kata de resposta e Mifune

O principal kata associado a Mifune é o Nage waza Ura no kata, formado por quinze respostas a tentativas de projeção. A palavra ura indica o reverso ou o lado interno da ação. O praticante acompanha o comprometimento de uke, sai da direção do ataque e aplica a resposta adequada.

A pesquisa histórica situa a conclusão desse conjunto entre 1934 e 1938, a partir do trabalho de Mifune e de Takahashi Kazuyoshi. O Nage waza Ura no kata aparece no livro de Mifune, Canon of Judo, mas não foi adotado como kata oficial pelo Kōdōkan. O estudo de Carl De Crée examina sua formação e finalidade: Nage waza Ura no kata.

O Gonosen no kata, associado à Universidade de Waseda, é outro conjunto histórico de respostas a projeções. Os dois não devem ser confundidos nem atribuídos oficialmente a Kanō.

5.5 Forma e aplicação

O kata possui uma forma definida, mas depende de ataque coerente, distância correta e participação efetiva de ambos os praticantes. Quando uke apenas oferece o corpo e tori repete movimentos exteriores, a sequência perde sua função. A precisão serve à compreensão do princípio.

Nesse ponto, o trabalho de Mifune segue a orientação de Kanō. O kata organiza a situação, mas a resposta deve conservar relação com o movimento real de uke. Isso é especialmente importante nesses conjuntos, nos quais toda a técnica depende da direção e do momento da ação inicial.

6. Expansão internacional

6.1 Antes da Federação Internacional

O Judô chegou a outros países antes que existisse uma federação mundial. Professores japoneses viajaram como educadores, instrutores policiais, participantes de exibições e lutadores profissionais. Imigrantes abriram dōjō em suas comunidades, enquanto alunos estrangeiros estudaram no Kōdōkan e levaram o ensino de volta a seus países. Durante muitos anos, jornais e promotores usaram o nome “jiu jitsu” mesmo para professores graduados no Kōdōkan.

Yamashita Yoshitsugu chegou aos Estados Unidos em 1903 e ensinou Theodore Roosevelt e integrantes da Academia Naval. Tomita Tsunejirō e Maeda Mitsuyo também fizeram apresentações naquele país. Maeda prosseguiu pelas Américas e pela Europa como lutador profissional. Koizumi Gunji fundou o Budokwai em Londres, em 1918. Kawaishi Mikinosuke organizou o ensino na França e adaptou o sistema de faixas coloridas para a progressão dos alunos europeus. Vasili Oshchepkov, formado no Kōdōkan, ensinou na Rússia e participou das bases técnicas do sambo. Comunidades japonesas estabeleceram práticas no Havaí, na costa oeste dos Estados Unidos, na América Latina e em diferentes regiões da Ásia.

O conteúdo não permaneceu idêntico em todos os lugares. O Judô entrou em contato com luta livre, boxe, educação física, polícia, universidades e espetáculos profissionais. As regras, a terminologia e os programas de ensino foram adaptados. A separação pública entre “Judô” e “jiu jitsu” demorou várias décadas para se tornar clara.

6.2 O Judô no Brasil

A história brasileira não começa com uma única pessoa. A documentação aponta duas vias principais. Professores e lutadores profissionais realizavam apresentações e desafios. Ao mesmo tempo, as comunidades de imigrantes japoneses mantinham atividades em associações, escolas e clubes.22

Saku Miura, também citado como Sack Miura, chegou ao Brasil em dezembro de 1908 e ensinou na Marinha em 1909. O estudo de Borges e Maçaneiro o apresenta como o primeiro instrutor já registrado no Kōdōkan a chegar ao país. Mamizuka Takezō desembarcou em 1910 e abriu um dōjō em São Paulo em 1912. Maeda Mitsuyo, conhecido como Conde Koma, chegou com seu grupo em 1914 e posteriormente se estabeleceu no norte do Brasil. Sua carreira de lutas e sua relação com a família Gracie fizeram dele o nome mais conhecido, embora não tenha sido o único introdutor.

Nos jornais das primeiras décadas do século XX, os termos “Judô”, “jiu jitsu” e “jiu jitsu de Kanō” eram usados de forma variável. A separação atual entre o Judô esportivo e o jiu jitsu brasileiro não pode ser aplicada diretamente aos anos 1910 e 1920. As atividades das comunidades japonesas também eram menos visíveis na imprensa do que os desafios públicos.

Durante o Estado Novo e a Segunda Guerra Mundial, associações japonesas sofreram vigilância, proibições linguísticas e repressão. A reorganização do período posterior à guerra favoreceu o crescimento dos clubes, das federações estaduais e das competições nacionais. A Confederação Brasileira de Judô foi fundada em 18 de março de 1969, quando a modalidade deixou a Confederação Brasileira de Pugilismo. A data consta da história institucional da CBJ.

Chiaki Ishii conquistou a medalha de bronze em Munique, em 1972, primeiro pódio olímpico do Judô brasileiro. Aurélio Miguel venceu em Seul, em 1988, e obteve o primeiro ouro do país na modalidade. Rogério Sampaio, Sarah Menezes, Rafaela Silva, Mayra Aguiar, Tiago Camilo, Leandro Guilheiro, Ketleyn Quadros, Rafael Silva e Beatriz Souza estão entre os campeões e medalhistas das gerações seguintes. A CBJ possui registros sobre Chiaki Ishii e sobre o ouro de Aurélio Miguel.

7. Guerra e organização esportiva internacional

7.1 Militarização e morte de Kanō

Nas décadas de 1930 e 1940, as artes marciais foram incorporadas à mobilização nacionalista do Estado japonês. Em 1931, Judô e kendō tornaram-se obrigatórios no currículo masculino das escolas médias. O ensino passou a receber uma linguagem cada vez mais ligada ao espírito nacional e à disciplina militar. A filosofia de Kanō não pode ser reduzida ao militarismo, mas o Kōdōkan atuava dentro de um sistema político em processo de radicalização.

Kanō morreu de pneumonia em 4 de maio de 1938, a bordo do navio Hikawa Maru, quando regressava de uma reunião do Comitê Olímpico Internacional. O projeto dos Jogos de Tóquio de 1940 foi abandonado naquele ano, durante a guerra na China.

7.2 O Judô durante a ocupação

Após a rendição japonesa, as autoridades de ocupação retiraram o ensino militar e as artes marciais do currículo escolar. Essa medida é frequentemente resumida pela frase “o Judô foi proibido”. A afirmação exige correção. O Kōdōkan permaneceu aberto como instituição privada, reformulou sua posição pública e recebeu militares aliados para treinamento. A suspensão atingiu principalmente o Judô escolar ligado ao sistema anterior.

O retorno oficial às escolas ocorreu em 13 de setembro de 1950, com orientação esportiva e educacional. A história publicada pela IJF distingue a retirada do currículo, em 1945, da continuidade do Kōdōkan. É nesse contexto que Mifune afirma que, depois da guerra, os méritos do Judô voltavam a ser reconhecidos. Sua formulação pertence ao período de reconstrução do Japão.

7.3 Federação, campeonatos e Olimpíadas

A União Europeia de Judô foi reorganizada em 1948. A Federação Internacional de Judô (IJF) foi fundada em 1951, e o primeiro Campeonato Mundial masculino ocorreu em Tóquio, em 1956. O Judô masculino entrou nos Jogos Olímpicos em Tóquio, em 1964. Ficou fora da edição de 1968 e retornou de forma permanente em 1972.

O neerlandês Anton Geesink venceu o Campeonato Mundial de 1961 e a categoria aberta dos Jogos de 1964. Seus resultados demonstraram que a competição internacional já não era domínio exclusivo dos japoneses. A organização olímpica acelerou a adoção das categorias de peso, a uniformização da arbitragem, o treinamento de alto rendimento e as alterações periódicas das regras.

O primeiro Campeonato Mundial feminino foi realizado em 1980. As mulheres participaram dos Jogos como demonstração em Seul, em 1988, e passaram a integrar oficialmente o programa em Barcelona, em 1992. A competição por equipes mistas estreou nos Jogos de Tóquio 2020, realizados em 2021. A cronologia da IJF apresenta as principais datas dessa organização internacional.

7.4 Competição e currículo

A competição internacional aumentou a visibilidade, o intercâmbio e a profissionalização do Judô. Em muitos ambientes, também reduziu o currículo praticado. Técnicas proibidas pelas regras, atemi waza, defesa pessoal, kata, kappō, história e filosofia recebem pouco espaço quando toda a atividade é organizada em função dos resultados.

Kanō considerava o shiai um meio legítimo de avaliação. A questão está na proporção. A competição examina parte da formação, mas não abrange sozinha tudo o que ele incluiu no Judô. Mifune também relaciona a qualidade da técnica à eficiência, à naturalidade, ao controle e à finalidade moral.

8. Mifune Kyūzō e O Canon of Judo

8.1 Vida e posição histórica

Mifune Kyūzō nasceu em Kuji, província de Iwate, em 21 de abril de 1883. Ingressou no Kōdōkan em 1903, aos vinte anos. Treinou com professores da primeira geração, especialmente Yokoyama Sakujirō, e recebeu ensino direto de Kanō. Apesar da baixa estatura, tornou-se conhecido pela mobilidade, pelo senso de oportunidade, pelo sumi otoshi, pelas combinações e pelas técnicas de resposta. Recebeu o décimo dan em 1945 e morreu em 27 de janeiro de 1965.

A Seibundō Shinkōsha registra as datas de sua vida, sua graduação e sua importância para a realização técnica das ideias de Kanō. O estudo sobre o Nage waza Ura no kata confirma o ingresso no Kōdōkan em 1903.

Mifune permaneceu dentro do Kōdōkan. Sua contribuição foi desenvolver uma interpretação técnica baseada em movimento sem rigidez, oportunidade e adaptação imediata à ação do adversário. Depois da morte de Kanō, tornou-se uma das principais autoridades da instituição.

8.2 As edições do livro

A história editorial exige a separação de três textos.

  1. Jūdō Kyōten: Michi to Waza (柔道教典 道と術), publicado em japonês em 1954. É a primeira edição e conserva referências próprias do início da década de 1950, como a sede de Suidōbashi.
  2. Jūdō no Shinzui: Michi to Waza (柔道の真髄 道と術), publicado em japonês em 1965. A edição foi revista e recebeu novos textos. Mifune conferiu o conteúdo, mas morreu durante o período de impressão.
  3. As edições inglesas. A tradução de K. Sugai pertence à primeira circulação da obra e apresenta várias passagens de interpretação difícil. A tradução de Françoise White, publicada em 2004, foi feita a partir da edição revista e recebeu novo projeto editorial. O registro bibliográfico a apresenta como uma tradução inteiramente nova.

Uma divergência na tradução portuguesa pode vir do texto japonês, de uma informação que ficou desatualizada, das alterações feitas em 1965 ou das escolhas de Françoise White. A comparação com Sugai é útil, mas nenhuma tradução inglesa substitui o exame das edições japonesas.

8.3 Naturalidade, adaptação e beleza

Mifune apresenta como “ser natural”. Essa formulação não esgota o significado do ideograma, que também envolve suavidade, flexibilidade, cedência e adaptação. No livro, porém, a naturalidade ocupa posição central. Ela resulta do treinamento e significa agir sem tensão inútil e sem fixar previamente uma única resposta.

A postura deve permitir avanço, recuo, giro, cedência ou entrada sem preparação desnecessária. A técnica muda de acordo com o deslocamento do adversário. Quando uma tentativa perde a oportunidade, pode ser transformada em combinação ou resposta. A resistência rígida fornece ao outro um ponto de apoio; a mudança de direção pode conduzi-lo ao próprio desequilíbrio.

Mifune também relaciona técnica e princípio. O Judô precisa aparecer no movimento, e não somente na explicação. A tríade shin, zen, bi, verdade, bem e beleza, expressa essa compreensão. A técnica é verdadeira quando corresponde à situação; é boa quando respeita a finalidade moral; é bela quando elimina o desperdício. Essa é uma formulação de Mifune e não uma terceira máxima oficial do Kōdōkan.

8.4 O livro como obra técnica

O Canon of Judo é principalmente uma obra técnica. A edição revista contém cerca de mil fotografias de Mifune e de seus alunos. O conteúdo começa com etiqueta, postura e fundamentos e segue por projeções, controles, estrangulamentos, articulações, trabalho no solo, defesa pessoal, variações, técnicas de resposta e reanimação. A editora japonesa apresenta essa organização.

As classificações usadas por Mifune não coincidem em todos os pontos com as adotadas atualmente pelo Kōdōkan. Isso deve ser registrado como característica da obra. O livro apresenta a pesquisa e a compreensão de um professor de décimo dan que participou da consolidação técnica do Judô.

Ao citar suas ideias, a atribuição precisa permanecer clara. Pode-se escrever que, para Mifune, a flexibilidade do alcança sua forma mais alta numa ação natural e adaptável. Não se deve afirmar que o Kōdōkan define oficialmente como verdade, bem e beleza, pois essa é a elaboração filosófica do autor.

8.5 Como ler o capítulo histórico de Mifune

Mifune nasceu em 1883, um ano depois da fundação do Kōdōkan. Conheceu os professores da primeira geração e acompanhou a instituição durante mais de sessenta anos, mas não presenciou os acontecimentos de 1882. Seu relato histórico reúne documentos, memória oral e intenção pedagógica.

O capítulo é uma fonte direta para compreender como Mifune e sua geração viam o Judô. Nomes, datas e endereços anteriores ao seu ingresso precisam ser comparados com cronologias e arquivos. Já as passagens sobre naturalidade, técnica e finalidade moral pertencem à sua própria compreensão e são essenciais para a leitura do livro.

9. Principais nomes da história do Judô

Esta relação reúne nomes ligados à criação do método, ao ensino, à divulgação internacional, ao Judô feminino e à competição. Ela não pretende estabelecer uma classificação entre os judocas.

NomeImportância histórica
Kanō Jigorō (1860 a 1938)Fundou o Kōdōkan e organizou o Judô como método de educação física, intelectual, moral e social. Foi educador e primeiro membro asiático do Comitê Olímpico Internacional.
Fukuda Hachinosuke, Iso Masatomo e Iikubo TsunetoshiForam os três principais professores de Kanō. Por meio deles, teve contato direto com a Tenjin Shin’yō ryū e a Kitō ryū.
Tomita Tsunejirō, Saigō Shirō, Yokoyama Sakujirō e Yamashita YoshitsuguOs quatro Shitennō participaram das primeiras competições, do ensino e da divulgação do Kōdōkan.
Nagaoka Hidekazu (1876 a 1952) e Isogai Hajime (1871 a 1947)Professores da primeira geração que consolidaram o ensino em Tóquio e Kyoto. Ambos receberam o décimo dan de Kanō.
Mifune Kyūzō (1883 a 1965)Professor de décimo dan, autor de Canon of Judo e criador do Nage waza Ura no kata.
Maeda Mitsuyo (1878 a 1941)Professor e lutador do Kōdōkan que atuou em vários países. Tornou-se um nome central na história do Judô e do jiu jitsu no Brasil.
Koizumi Gunji (1885 a 1965)Fundou o Budokwai de Londres em 1918 e participou da organização do Judô britânico e europeu.
Oshchepkov Vasili (1892 a 1937)Foi o primeiro russo a alcançar o segundo dan no Kōdōkan. Ensinou Judô na Rússia e participou da formação técnica do sambo. Morreu durante os expurgos stalinistas.
Kawaishi Mikinosuke (1899 a 1969)Teve papel importante na organização do Judô francês e na adaptação pedagógica das faixas coloridas.
Fukuda Keiko (1913 a 2013)Aluna direta de Kanō, professora de kata e uma das principais representantes do Judô feminino. Alcançou o nono dan no Kōdōkan.
Kimura Masahiko (1917 a 1993)Foi um dos principais competidores japoneses de sua geração. Sua vitória sobre Hélio Gracie, em 1951, tornou o ude garami conhecido no jiu jitsu brasileiro pelo nome “kimura”.
Anton Geesink (1934 a 2010)Primeiro campeão mundial masculino não japonês, em 1961, e campeão olímpico da categoria aberta, em 1964.
Rena “Rusty” Kanokogi (1935 a 2009)Trabalhou pelo acesso das mulheres à competição e organizou o Campeonato Mundial feminino de 1980, em Nova York.
Yamashita Yasuhiro (nascido em 1957), Tani Ryōko (nascida em 1975) e Teddy Riner (nascido em 1989)Representam períodos diferentes da competição de alto rendimento e possuem longas trajetórias mundiais e olímpicas.
Chiaki Ishii (nascido em 1941) e Aurélio Miguel (nascido em 1964)Conquistaram, respectivamente, a primeira medalha e o primeiro ouro olímpico do Judô brasileiro.

A história também depende do trabalho de professores de base, dirigentes, árbitros, pesquisadores e comunidades que mantiveram o ensino fora dos grandes centros e das competições internacionais.

10. Cronologia essencial

DataAcontecimento
1860Nascimento de Kanō Jigorō.
1867 a 1868Queda do xogunato Tokugawa e Restauração Meiji.
1877Kanō inicia Tenjin Shin’yō-ryū com Fukuda Hachinosuke.
1879Passa a estudar com Iso Masatomo.
1881Forma-se na Universidade de Tóquio; começa Kitō-ryū com Iikubo Tsunetoshi.
1882Criação do Kanō juku em fevereiro e fundação do Kōdōkan em maio, no templo Eishōji.
1883Tomita e Saigō tornam-se os primeiros shodan; nasce Mifune Kyūzō.
Década de 1880Encontros policiais, aumento das matrículas e formação dos primeiros kata do Kōdōkan.
1887A cronologia oficial registra o Jū no kata e o Katame no kata.
1895Primeiro Gokyō no Waza; fundação do Dai-Nippon Butokukai.
1900Regulamento de competição do Kōdōkan.
1903Mifune entra no Kōdōkan; Yamashita viaja aos Estados Unidos.
1906Comissão nacional de padronização de kata liderada por Kanō.
1909Kanō torna-se o primeiro membro asiático do COI.
1918Koizumi Gunji funda o Budokwai em Londres.
1920Revisão do Gokyō.
1922Fundação da Sociedade Cultural do Kōdōkan e apresentação conjunta de seiryoku zen’yō e jita kyōei.
1923 a 1926Organização do ensino regular para mulheres no Kōdōkan.
1924Apresentação do Seiryoku Zen’yō Kokumin Taiiku.
1931Judô e kendō tornam-se obrigatórios no currículo masculino das escolas médias japonesas, em ambiente crescentemente nacionalista.
1934Inauguração do grande Kōdōkan de Suidōbashi. A conclusão do Nage waza Ura no kata é situada entre 1934 e 1938.
1938Morte de Kanō.
1945Fim da guerra; Mifune recebe 10º dan; artes marciais são retiradas do currículo escolar.
1950Retorno oficial do Judô às escolas, com orientação esportiva e educacional.
1951Fundação da Federação Internacional de Judô.
1954Publicação de Jūdō Kyōten: Michi to Waza.
1956Primeiro Campeonato Mundial masculino e criação do Kōdōkan Goshin jutsu.
1958Mudança do Kōdōkan para a atual sede em Kasuga.
1961Anton Geesink torna-se o primeiro campeão mundial masculino não japonês.
1964Estreia olímpica do Judô masculino em Tóquio.
1965Morte de Mifune e publicação da edição japonesa revista, Jūdō no Shinzui: Michi to Waza.
1969Fundação da Confederação Brasileira de Judô.
1972Retorno permanente do Judô aos Jogos; Chiaki Ishii conquista o primeiro pódio olímpico brasileiro.
1980Primeiro Campeonato Mundial feminino.
1988Judô feminino como demonstração olímpica; Aurélio Miguel conquista o primeiro ouro brasileiro.
1992Judô feminino entra oficialmente no programa olímpico.
2004Publicação da nova tradução inglesa de Françoise White.
2021Estreia olímpica da competição por equipes mistas nos Jogos de Tóquio 2020.

11. Kanō e Mifune

Kanō reuniu técnicas de diferentes escolas, definiu condições mais seguras para a prática livre, organizou graduações e regras e colocou o ensino dentro de um projeto educacional. O Judô resultou desse trabalho continuado. Não corresponde apenas a uma versão reduzida do jūjutsu.

Mifune desenvolveu essa tradição a partir da experiência técnica. Em seu livro, se aproxima da naturalidade. O praticante não deve permanecer rígido nem passivo. Deve conservar a capacidade de mudar conforme a situação. A economia do movimento, a eficiência e a beleza são consequências desse domínio.

O Canon of Judo possui, portanto, dois valores. Seu capítulo histórico registra a memória da geração de Mifune e precisa ser comparado com os documentos disponíveis. Sua parte técnica e filosófica apresenta a compreensão de um dos principais professores do Kōdōkan no século XX. A correção de nomes ou datas não reduz a importância dessa contribuição.

12. Referências selecionadas

Obras de Mifune e história editorial

  1. MIFUNE, Kyūzō. Jūdō Kyōten: Michi to Waza (柔道教典 道と術). Tóquio: Seibundō Shinkōsha, 1954.
  2. MIFUNE, Kyūzō. Jūdō no Shinzui: Michi to Waza (柔道の真髄 道と術). Tóquio: Seibundō Shinkōsha, 1965.
  3. MIFUNE, Kyūzō. The Canon of Judo: Classic Teachings on Principles and Techniques. Tradução de Françoise White. Tóquio, Nova York e Londres: Kodansha International, 2004. Registro bibliográfico.
  4. Seibundō Shinkōsha. Edição japonesa e histórico editorial.

Fontes institucionais

  1. Kōdōkan. História do Judô Kōdōkan.
  2. Kōdōkan. Cronologia oficial.
  3. Kōdōkan Global. Kata adotados.
  4. Kōdōkan. Material para exames de graduação.
  5. National Diet Library. Kanō Jigorō.
  6. International Judo Federation. History and Culture.
  7. International Judo Federation. Guerra, ocupação e retorno do Judô.
  8. International Judo Federation. História do Judô feminino.
  9. Nihon Kobudō Kyōkai. Tenjin Shin’yō ryū.
  10. Confederação Brasileira de Judô. História institucional.

Estudos históricos

  1. DE CRÉE, Carl. Kōdōkan Jūdō’s Three Orphaned Forms of Counter Techniques, Part 2: The Nage waza Ura no kata. Archives of Budo, volume 11, 2015.
  2. GAINTY, Denis. Martial Arts and the Body Politic in Meiji Japan. Routledge, 2013.
  3. YUASA, Atsushi. The Formation of Modern Budō in the Meiji Period.
  4. BORGES, Rafael de Camargo Penteado; MAÇANEIRO, Gustavo Goulart Braga. “Shigeichi Yoshima’s Trajectory in the Promotion of Judo in Brazil”. Martial Arts Studies, número 13, 2023, páginas 27 a 41. DOI: 10.18573/mas.137.

Notas


  1. A passagem resume em poucas linhas um processo que ocupou vários anos. A queda do xogunato ocorreu entre 1867 e 1868, mas os domínios foram extintos somente em 1871. A perda dos privilégios e dos estipêndios da classe guerreira continuou durante a década de 1870. A afirmação de que “o povo se alegrou” também generaliza reações que incluíram adesão, resistência e revoltas. A Columbia University apresenta uma introdução ao período.↩︎
  2. As antigas escolas perderam parte de seu sustento quando os domínios e os privilégios dos guerreiros desapareceram. Algumas fecharam, mas outras continuaram por meio de famílias, exibições, associações e ensino policial. O declínio foi importante, porém não significou o desaparecimento das artes marciais. Ver Yuasa, The Formation of Modern Budō in the Meiji Period.↩︎
  3. Fukuda Hachinosuke trabalhava em Moto Daikuchō, no distrito de Nihonbashi. Havia sido instrutor no Kōbusho, o centro de treinamento marcial do xogunato, e também exercia o seikotsu, tratamento tradicional de ossos, luxações e traumatismos. “Quiropraxia” não é uma tradução histórica adequada para essa atividade. A escola se chamava Tenjin Shin’yō ryū, e não “Tenshin Shinyo”. A biografia de Fukuda registra sua ligação com o Kōbusho e com o seikotsu. A Nihon Kobudō Kyōkai descreve o currículo da escola.↩︎
  4. Kanō entrou no dōjō de Fukuda em 1877. Nascido em 10 de dezembro de 1860, tinha dezesseis anos e completaria dezessete pelo sistema ocidental. A idade de dezoito anos corresponde ao antigo modo japonês de contagem, no qual a criança nascia com um ano e todos acrescentavam um ano no Ano Novo. A data de ingresso está na cronologia do Kōdōkan.↩︎
  5. O nome correto é Iso Masatomo (磯正智), também conhecido como Iso Mataemon Masatomo, e não “Ishizue Masatomo”. Seu dōjō ficava em Otamagaike, Kanda. Ver o perfil de Iso.↩︎
  6. Iso morreu em junho de 1881, o décimo quarto ano da era Meiji. A afirmação de que Kanō se tornou mestre dos princípios do jūjutsu é uma avaliação de Mifune, não o registro de uma graduação determinada. Kanō continuou estudando outras escolas depois desse período.↩︎
  7. O Kōdōkan registra o mestre de Kitō ryū como Iikubo Tsunetoshi (飯久保恒年). “Iikubo Kohei” não corresponde ao nome usado na cronologia oficial. Como existem leituras diferentes do prenome em obras antigas, os caracteres japoneses são úteis na comparação das edições.↩︎
  8. A descrição das duas escolas é muito resumida. A Tenjin Shin’yō ryū ensinava golpes, projeções, estrangulamentos, controles articulares, reanimação e cuidados com lesões. A Kitō ryū dava grande atenção às projeções, ao equilíbrio e às formas ligadas ao combate em armadura, mas seu currículo não se limitava a isso. Kanō também pesquisou outras escolas. A Nihon Kobudō Kyōkai registra a variedade técnica da Tenjin Shin’yō ryū.↩︎
  9. Kanō concluiu o curso principal em 1881 na Universidade de Tóquio. A instituição passou a se chamar Universidade Imperial em 1886 e Universidade Imperial de Tóquio em 1897. Portanto, o nome usado na tradução é posterior à formatura. Kanō estudou ciência política e economia na Faculdade de Letras e prosseguiu com estudos de filosofia, ética e estética. Ver a Biblioteca Nacional da Dieta, o Comitê Olímpico Japonês e a Universidade de Tóquio.↩︎
  10. A cronologia do Kōdōkan registra duas datas em 1882. O Kanō juku, alojamento para alunos, foi criado no templo Eishōji em fevereiro. O Kōdōkan foi fundado no mesmo local em maio. A frase sobre a mudança de residência simplifica a instalação dessas duas atividades. Ver a cronologia oficial.↩︎
  11. Kanō tinha vinte e um anos pelo cômputo moderno e vinte e três pelo sistema japonês antigo. Mifune escreve que o primeiro dōjō possuía dez tatames. A tradição institucional atual fala em doze tatames e nove alunos. A diferença deve ser mantida como divergência entre fontes. Ver Kōdōkan, história dos dōjō.↩︎
  12. As escolas de jūjutsu não se ocupavam somente de ataque e defesa. Muitas ensinavam etiqueta, medicina, reanimação, estratégia e obrigações próprias da linhagem. Kanō selecionou técnicas, limitou no randori as ações que apresentavam maior risco, adotou graduações e organizou uma proposta de educação física, intelectual, moral e social. A história do Kōdōkan descreve essa reorganização.↩︎
  13. A sequência das sedes está incompleta. A cronologia registra Eishōji em 1882; Minami Jinbōchō e Kami Nibanchō em 1883; Fujimichō em 1886; Masagochō em 1889; novo período em Kami Nibanchō em 1891; Shimo Tomisakachō em 1893; e Koishikawa, junto a Suidōbashi, entre dezembro de 1933 e março de 1934. O prédio de Shimo Tomisaka foi reconstruído em 1907, em Ōtsuka Sakashitachō, como dōjō secundário chamado Kaiunzaka. Ele não constituiu uma nova sede principal. Ver a cronologia do Kōdōkan.↩︎
  14. A expressão “local atual” corresponde ao momento da primeira edição, em 1954, quando o Kōdōkan ainda estava em Suidōbashi. A mudança para Kasuga ocorreu em 25 de março de 1958. A frase estava correta na publicação original, mas deixou de estar depois da mudança. Ver a cronologia oficial e a página do museu do Kōdōkan.↩︎
  15. Os 514 tatames pertenciam ao grande salão inaugurado em 1934. O número de estudantes deve ser entendido como total acumulado de matrículas, e não como presença simultânea. A relação de países mostra onde Mifune percebia a circulação do Judô no início da década de 1950. Na União Soviética, Vasili Oshchepkov ensinou Judô e participou da formação do sambo, mas foi executado em 1937. Depois disso, o Judô permaneceu politicamente limitado até sua retomada internacional. Ver o perfil de Oshchepkov e a história da IJF.↩︎
  16. “A Guerra” se refere à Segunda Guerra Mundial. Mifune escreve a partir do Japão posterior a 1945. A afirmação sobre a importância cultural do Judô representa a posição do autor naquele período.↩︎
  17. A passagem reúne dois princípios diferentes. Seiryoku zen’yō (精力善用) trata do emprego mais apropriado da energia física e mental. Jita kyōei (自他共栄) trata do benefício e da prosperidade de si e dos outros. Kanō apresentou as duas máximas em conjunto em 1922, mas uma não é tradução da outra. Ver a história do Kōdōkan e o material oficial para exames.↩︎
  18. O ideograma () admite sentidos como suavidade, flexibilidade, cedência e adaptação. “Ser natural” é a leitura filosófica de Mifune. Ela é importante para compreender seu livro, mas não corresponde sozinha ao significado lexical do termo.↩︎
  19. A expressão shin, zen, bi, verdade, bem e beleza, pertence à formulação filosófica de Mifune. Não é tradução literal de nem uma terceira máxima oficial equivalente a seiryoku zen’yō e jita kyōei.↩︎
  20. O “estudo científico” mencionado por Mifune consiste em observar equilíbrio, direção, tempo, alavanca e emprego da energia, além de verificar a técnica durante o treinamento. A expressão deve ser entendida dentro do projeto de modernização do Judô, sem equipará-la automaticamente à ciência experimental contemporânea.↩︎
  21. Para a transformação das artes marciais em instituições modernas, ver Denis Gainty, Martial Arts and the Body Politic in Meiji Japan, e a síntese da Universidade de Tsukuba sobre o Dai-Nippon Butokukai.↩︎
  22. Borges e Maçaneiro, “Shigeichi Yoshima’s Trajectory in the Promotion of Judo in Brazil”, Martial Arts Studies, número 13, 2023, páginas 27 a 41. O artigo documenta Miura, Mamizuka e o grupo de Maeda e distingue o circuito profissional das atividades comunitárias.↩︎